EST. MMXXIV · LISBOA · NAGASÁQUI
TOMO I · N.º 1 · MMXXVI
Romance Histórico do Período Nanban · 1543–1650
南蠻

O Quimono Roubado

Capa de O Quimono Roubado, por Constança Vilhena
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TOMO I · N.º 005 · POR Constança Vilhena
Cenário
A bordo da nau Nossa Senhora da Graça, entre Hirado e Macau, Outubro de 1614
Comprimento
Conto · 5 450 palavras
Grau de Ardor
Ardente
Avisos de Conteúdo
identidade de género em disfarce perseguição religiosa segredo de paternidade deslocação forçada por edital viuvez cena íntima entre adultos

Vestido de mulher para fugir do édito, um jovem mestiço descobre, a bordo da nau que o leva para Macau, que o capitão é o pai que nunca conheceu — e que o coração tem nomes que não escolhemos.

A nau Nossa Senhora da Graça batia a costa de Hirado havia três dias, à espera de vento, e Pedro nunca tinha sentido tanto medo na vida.

Não era o mar que o assustava. Era o quimono.

— Põe-te direito — sussurrou-lhe a mãe, ajustando-lhe pela quinta vez o obi sobre as ancas estreitas. — E pelo amor de Deus, baixa os olhos quando passares pelo capitão. Os homens não olham os homens nos olhos. As mulheres muito menos.

— Mãe, não consigo.

— Consegues, sim. — Os dedos dela tremiam, mas a voz não. — Consegues porque tens de conseguir. Se ficares, matam-te. Se te apanharem na nau como és, atiram-te ao mar. Já sabes.

Pedro fechou os olhos. Vinte e um anos a ser filho desta mulher e nunca a vira chorar; agora, à luz baça da lanterna de papel, viu-lhe nos cílios uma humidade que não se atrevia a chamar pelo nome.

Okaasan — disse, baixinho, e foi a última vez que lhe chamaria assim.

Tsuru — corrigiu ela, com uma firmeza de aço. — De agora em diante, Tsuru. Esquece o outro nome. Esquece-o até pisares Macau.

E foi assim que, na madrugada de quatro de outubro de mil seiscentos e catorze, o filho ilegítimo de um marinheiro português e de uma cortesã japonesa subiu pela prancha da nau do trato vestido de mulher, com o coração a martelar como um tambor de festa.

O que ele ainda não sabia era que, no tombadilho, o homem que o observava de cenho franzido era o pai que nunca conhecera.


A senhora à frente dele subiu primeiro.

Ana não olhou para trás. Não podia. Se olhasse para trás, via Hirado a afastar-se, via a casa onde tinha sido feliz três anos e infeliz cinco, via o pavilhão onde o seu senhor a recebera como concubina e a dispensara como criada. Via, sobretudo, o túmulo da filha que lhe dera e que não sobrevivera ao primeiro inverno.

Ojou-sama — murmurou-lhe Tsuru, atrás. — Tem cuidado com o degrau.

— Não me chames isso — respondeu ela, sem voltar a cara. — Já não sou senhora de coisa nenhuma.

A voz era um sussurro, mas Tsuru ouviu-a como se lhe tivesse caído no peito uma pedra quente.

Subiram. O capitão estava no tombadilho, de costas, a falar com o piloto. Tsuru conseguiu ver-lhe apenas a nuca queimada de sol, o cabelo grisalho preso atrás com um cordão de couro, os ombros largos por baixo do gibão escuro. Voltou a baixar os olhos, como a mãe lhe ensinara, e seguiu Ana até ao convés onde se acomodavam os passageiros de qualidade — três damas, dois padres a fingir-se de mercadores, um jovem mestiço vestido de mulher que ninguém devia ver duas vezes.

— Senhora — disse uma voz em português, atrás deles. — A vossa senhoria perdoará, mas precisamos do nome.

Ana voltou-se. Tsuru, por instinto treinado durante meses, voltou-se também — e gelou.

O capitão tinha-se virado. E olhava para ele.

Tinha os olhos de um cinzento estranho, raro, que Tsuru conhecia bem, porque os via todas as manhãs no espelho de bronze de sua mãe. A barba era mais cerrada do que ele alguma vez imaginara, e o rosto estava marcado pelo sol de trinta travessias, mas os olhos — os olhos eram os mesmos.

Não pode ser.

— O nome, senhora — repetiu o capitão, e a voz dele tinha uma rouquidão de quem fumara muito tabaco e gritara muitas ordens.

— Ana — respondeu ela, com uma serenidade que vinha de não ter já nada a perder. — Ana Mizuki. Esta é a minha aia, Tsuru.

O capitão olhou para Tsuru. Olhou um instante mais do que devia. Tsuru sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e abençoou os pós-de-arroz que a mãe lhe espalhara pelas faces.

Tsuru — repetiu o capitão, devagar, como se a palavra lhe soubesse a sal. — Que tenhais ambas boa travessia.

Inclinou-se, voltou costas, e foi-se.

Tsuru deixou-se cair de joelhos sobre a esteira, sob o pretexto de arranjar o saco de viagem da senhora. As mãos tremiam-lhe.

— Estás bem? — sussurrou Ana, ajoelhando-se ao lado dele.

— Estou.

— Mentes mal, criada.

— Estou bem, ojou-sama. É o enjoo.

Ela olhou-o com uns olhos castanhos que de repente não lhe pareceram os olhos de uma senhora despachada para o exílio, mas de uma mulher que via tudo.

— Ainda nem zarpámos.

E sorriu. Foi a primeira vez que Tsuru a viu sorrir, e foi como se uma lâmpada se tivesse acendido naquele convés sombrio.


Zarparam à tardinha.

A nau era uma carraca grande, das que faziam a carreira Macau-Nagasáqui-Macau havia trinta anos, e o capitão chamava-se Jerónimo da Silva Castelo Branco. Tsuru ouvira-lhe o nome dito por um dos marinheiros, e o nome era o nome certo. Não havia dúvida.

A mãe nunca lho dissera por inteiro. Dissera só Jerónimo. Dissera o teu pai chamava-se Jerónimo, e era capitão de uma nau, e prometeu voltar e não voltou. Dissera-lho aos sete anos, quando ele perguntara pela primeira vez por que razão era diferente dos outros meninos da rua, por que razão a mãe vivia naquela casa onde só entravam homens, por que razão lhe chamavam namban no ko, o filho dos bárbaros do sul.

E agora aqui estava ele, deitado numa enxerga de palha sob o convés, com o quimono ainda apertado e o coração a bater num ritmo que ele não conhecia, a ouvir os passos do pai por cima da cabeça.

— Não dormes — disse Ana, na escuridão.

— Não.

— Pensas em quem deixaste?

Tsuru engoliu em seco.

— Penso em quem encontrei.

Houve um silêncio. Tsuru maldisse-se por dentro: cala-te, idiota, ela vai perceber, ela vai…

— O capitão — disse Ana, baixinho. — Olhaste para o capitão como quem viu um fantasma.

— Imaginação da senhora.

— A senhora — disse Ana, com um fio de sorriso na voz — não tem imaginação nenhuma, criada. A senhora só tem olhos.

E voltou-se para o lado, dando-lhe as costas, como uma fidalga deve dar a uma aia. Mas a voz, antes de adormecer, deixou cair uma frase no escuro:

— Quando quiseres contar-me, conta. Eu também guardo segredos.


Os primeiros três dias correram em silêncio.

Faziam-se os ritos de bordo: a missa de manhã, dita por um dos padres clandestinos sob o pretexto de leitura piedosa; a refeição frugal de arroz e peixe seco; as rezas das mulheres na popa, viradas para o mar de leste, onde já não se via Hirado nem coisa que se parecesse com Hirado.

Ao quarto dia, Tsuru subiu ao convés a buscar água doce e cruzou-se com o capitão.

Estava ele apoiado à amurada, a olhar o horizonte, com uma luneta na mão. Voltou-se ao ouvir os passos miúdos do quimono e Tsuru, antes que pudesse fazer mesura, encontrou-lhe os olhos.

Tsuru-san — disse o capitão, em japonês razoável. — Não devíeis vir cá acima sozinha.

— A minha senhora pediu água, capitão-mor.

Ele ergueu uma sobrancelha. O termo capitão-mor não era para ele, era para os homens que comandavam a Frota da Índia toda, e Tsuru, ao ouvir-se, percebeu o erro com horror. Que aia conhecia esses títulos? Que aia falava português, ainda por cima?

Mas o capitão não comentou. Apenas a olhou um momento mais, com aquele cenho franzido que Tsuru começava a recear.

— Vinde — disse, em português desta vez. — Há uma bilha aqui.

Encheu-lhe o cântaro com as próprias mãos. Tsuru manteve os olhos baixos e foi nesse instante que sentiu, no pulso, um toque ligeiro: o dedo dele a roçar, sem querer, a sua pele.

Foi um instante. Mas Tsuru sentiu-o subir-lhe pelo braço como se lhe tivessem encostado um carvão em brasa. Encolheu a mão e quase entornou a água.

— Perdão — disse o capitão, e havia qualquer coisa estranha na voz dele. — Tendes os pulsos de uma criança.

— A senhora minha mãe era pequena — murmurou Tsuru, em japonês, e fugiu.

Lá em baixo, encostado à parede da estiva, deixou-se escorregar até ao chão e cobriu o rosto com as mãos.

O pai tinha-lhe tocado.

O pai não o reconhecia.

E Tsuru percebeu, naquele momento, com uma clareza que lhe doeu nos ossos, que não sabia o que era pior.


Foi naquela noite que Ana o beijou pela primeira vez.

Não foi um beijo de paixão. Foi um beijo de quem se afoga.

Estavam as duas — porque, durante o dia, eram duas mulheres — sentadas no canto da câmara das passageiras, à luz de uma lanterna de papel a tremer ao sabor das ondas. Ana tinha a cabeça encostada à parede e os olhos fechados, e Tsuru olhava-a sem se atrever a respirar, porque Ana tinha o cabelo solto pelos ombros, e a luz da lanterna fazia-lhe um halo cor de âmbar, e o quimono de viagem entreabria-se-lhe ao colo de uma maneira que…

— Estás a olhar para mim — disse Ana, sem abrir os olhos.

— Estou.

— Como uma aia olha para a senhora?

— Não.

— Como, então?

Tsuru não soube responder. O silêncio durou muito. Lá fora, o mar batia no costado da nau num ritmo que parecia o de um coração demasiado grande.

Ana abriu os olhos. Voltou a cabeça devagar. Olhou-o.

— Quem és tu? — perguntou, num sussurro que era quase doce.

— Sou a tua aia, ojou-sama.

— Mentiroso.

E aproximou-se. E pôs-lhe a mão no rosto. E Tsuru sentiu os dedos dela frios sobre a pele quente, e não se atreveu a recuar, nem a avançar, nem a respirar.

— Tens a barba a despontar — disse Ana, e foi quase um riso. — Sob os pós, tens a barba a despontar.

Ojou-sama

— Cala-te.

E beijou-o.

Foi um beijo desajeitado, porque ela inclinou-se e ele estava sentado mais alto, e os narizes encontraram-se antes dos lábios, e Ana riu-se contra a boca dele, e Tsuru, que nunca tinha beijado ninguém em vinte e um anos, deixou-se beijar com os olhos esbugalhados como um peixe fora de água.

Quando ela se afastou, tinha as faces ruborizadas e os olhos brilhantes.

— Há quanto tempo? — perguntou.

— Há quanto tempo o quê?

— Há quanto tempo te visto eu de mulher e não sei?

— Desde Hirado. Só desde Hirado, juro.

Ana olhou-o. Olhou-o com aqueles olhos castanhos que viam tudo.

— Não juro — disse, baixinho. — Não me jures, que estamos numa nau de cristãos clandestinos e os juramentos pesam. Mas diz-me o nome. O verdadeiro.

— Pedro — disse ele, e foi a primeira vez em quatro dias que pronunciou o seu nome, e a voz tremeu-lhe. — Chamo-me Pedro.

— Pedro — repetiu Ana. E sorriu. — Pedro, então.

E adormeceu encostada ao ombro dele, e Pedro não dormiu nada, nada, em toda aquela noite, com o coração à boca e o nome do pai a martelar-lhe nos ouvidos.


Ao quinto dia, deu-se a tempestade.

Veio do sul, como vinham sempre as tempestades naquela rota em outubro, e veio depressa. O céu encheu-se de uma cor de ferro velho, o vento começou a uivar nos cordames, e o capitão Jerónimo gritava ordens no convés enquanto os marinheiros amarravam tudo o que podia rebolar.

Lá em baixo, na câmara das passageiras, Ana rezava em voz alta, em latim, sem cuidado nenhum de quem a ouvisse — porque na hora da morte os disfarces caem todos. Os dois padres clandestinos ajoelharam-se ao lado dela. Pedro segurou-lhe a mão com força e tentou rezar também, mas só lhe vinham à cabeça as orações da mãe, em japonês, dirigidas a uma deusa Maria que parecia mais Kannon do que outra coisa.

A nau adornou. Ouviu-se o estalo de uma verga lá em cima, gritos, água a entrar.

Capitão! — bradou alguém. — Capitão, o gajeiro caiu ao mar!

E Pedro, sem pensar, fez uma coisa que uma aia japonesa nunca faria: levantou-se de um salto, atirou para o lado o quimono de cima que lhe entravava as pernas, e correu para o convés.

Ana gritou-lhe que parasse. Pedro não ouviu.

Lá em cima, o vento cortava como navalha. Pedro viu o gajeiro a debater-se nas vagas, a uns quinze metros do costado, e viu o capitão Jerónimo a tentar atirar-lhe um cabo, e viu que o cabo estava emaranhado e ninguém ali sabia desfazer aquele nó porque era um nó japonês, daqueles que os pescadores de Hirado usavam.

Pedro arrancou o cabo das mãos do pai.

— Dai-mo!

Tsuru, em nome de Deus, voltai…

— Eu sei o nó!

Em três segundos desfez o emaranhado. Em mais três, atirou o cabo com uma precisão que só tinha quem cresceu a brincar nos cais de Hirado. O gajeiro agarrou-se. Os marinheiros puxaram. O homem subiu a bordo aos berros, vivo.

E o capitão Jerónimo voltou-se para Pedro, e olhou-o, e o quimono dele estava ensopado e colado ao corpo, e o cabelo solto, e o rosto sem pós-de-arroz porque a chuva os tinha levado, e havia ali, à luz lívida do raio que rasgou o céu naquele instante, um rapaz de vinte e um anos onde devia estar uma rapariga.

Não disse nada. O capitão não disse nada.

Mas pegou-lhe pelo braço, com uma força que não era ódio e não era ternura, e arrastou-o para a sua câmara à popa, e fechou a porta atrás de si.


— Quem sois vós?

A voz do capitão era baixa. Tremia, mas não era de fúria. Era de uma coisa que Pedro não conhecia.

— Sou… — Pedro engoliu em seco. — Sou a aia da senhora Ana, capitão-mor.

— Não me mintais.

— Senhor…

Não me mintais.

E o capitão deu um passo em frente, e agarrou-lhe o queixo com a mão calejada, e ergueu-lhe o rosto para a luz da lanterna que oscilava com o jogo da nau. Olhou-o. Olhou-o muito tempo. E Pedro viu, com horror e com qualquer coisa parecida com alívio, os olhos cinzentos do pai encherem-se de lágrimas.

— Como te chamas? — perguntou o capitão, e a voz partiu-se-lhe ao meio. — Diz-me como te chamas, rapaz.

— Pedro.

— Pedro de quê?

— Pedro… — A voz não saía. — Pedro de mãe nenhuma. Pedro de pai nenhum. Namban no ko, é como me chamam em Hirado.

— A tua mãe.

— A minha mãe chama-se Yuki.

O capitão soltou-lhe o queixo. Recuou um passo. Pousou-se contra a mesa de mapas, como se as pernas lhe tivessem fugido.

— Yuki — disse, num sussurro. — Yuki da casa do salgueiro?

— Da casa do salgueiro.

E o capitão Jerónimo da Silva Castelo Branco, que tinha enfrentado tufões e piratas wakō e a peste de Malaca, deixou-se cair sentado na cadeira de capitão, e cobriu o rosto com as mãos, e chorou como Pedro nunca tinha visto homem nenhum chorar.

— Eu prometi-lhe que voltava — disse, por entre os dedos. — Eu prometi-lhe.

— Senhor…

— Eu prometi-lhe, Pedro.

— Eu sei.

— Voltei. Voltei três anos depois. A casa do salgueiro tinha ardido. Disseram-me que ela morrera. Disseram-me que não havia ninguém.

— Ela mudou de bairro depois do incêndio — disse Pedro, baixinho. — Levou-me ao colo. Eu tinha dois anos.

O capitão olhou para ele. Os olhos dele estavam vermelhos e havia neles uma fome de vinte anos.

— Eu não sabia — disse. — Filho, juro-te por Deus que eu não sabia.

E foi a primeira vez em vinte e um anos que alguém chamou filho a Pedro.

E Pedro, que tinha jurado a si próprio que nunca choraria diante deste homem, chorou.


Ficaram muito tempo em silêncio.

A tempestade rugia lá fora. A lanterna oscilava. O capitão estendeu a mão e tocou no rosto do filho, e desta vez foi uma carícia, desajeitada, como de quem nunca aprendeu a fazê-las.

— Tens os olhos dela — disse.

— Tenho os teus, otō-san.

E o capitão riu-se, com a boca a tremer, e disse:

— Eu sei.

Depois, devagar, recompôs-se. Limpou os olhos com a manga do gibão. Olhou o filho com uma severidade nova, que não era zanga, era cálculo.

— Quem mais sabe que és homem?

— A senhora Ana.

— Só ela?

— Só ela.

— Confias nela?

Pedro hesitou. Pensou no beijo desajeitado, na mão fria sobre o seu rosto, no Pedro, então que ela lhe dissera no escuro.

— Confio.

O capitão olhou-o longamente.

— Estás apaixonado por ela — disse. Não era pergunta.

Pedro corou. Não respondeu.

— Ela é viúva de senhor — continuou o capitão, mais para si mesmo do que para o filho. — É cristã em fuga. Vai chegar a Macau sem nada e sem ninguém. Tu também. — Suspirou. — Filho, este mundo não é generoso com gente como vós.

— Eu sei, otō-san.

— Mas tu — e aqui o capitão pôs-lhe a mão no ombro, e a mão pesava como uma promessa — tu já não estás sozinho.


Ana esperava-o na câmara das passageiras com os olhos secos e uma fúria fria.

— Tu foste louco — disse, mal Pedro entrou. — Tu foste absolutamente louco. Subiste àquele convés com o quimono molhado, à frente de trinta marinheiros, e desfizeste um nó como nenhuma mulher japonesa do mundo desfaz. Foste louco, Pedro. Foste louco.

— Ana…

Cala-te. — Mas a voz tremia-lhe. — O capitão chamou-te, não chamou? Levou-te à câmara?

— Levou.

— E?

Pedro sentou-se ao lado dela. Pegou-lhe na mão. Os dedos dela estavam frios, outra vez.

— E descobri que o capitão é meu pai.

Ana olhou para ele. Olhou-o muito tempo, como quem espera o remate de uma piada de mau gosto. Quando percebeu que não havia remate, pôs a mão na boca.

Senhor Jesus Cristo.

— Pois.

— Pedro…

— Pois, Ana.

E ela riu-se, com uma risada baixa, nervosa, que era mais parente do choro do que do riso.

— Numa só travessia — disse. — Numa só travessia, descobres o pai, beijas uma viúva, salvas um gajeiro, e quase te afogas. Que farias tu numa segunda?

— Talvez te casasse — disse Pedro, e nem ele soube de onde lhe veio a coragem.

Ana ficou muito quieta.

— Não digas isso à toa.

— Não digo à toa.

— Pedro — e ela voltou-se para ele, e tinha os olhos rasos de água —, eu sou viúva de um homem que ainda está vivo, sou cristã num mundo que persegue cristãos, vou para Macau sem nada que seja meu, e tu és um rapaz de vinte e um anos que só esta semana descobriu o próprio nome. Não digas isso à toa.

— Não digo à toa — repetiu ele.

E ela inclinou-se, e encostou a testa à dele, e ficaram assim muito tempo, com o mar a bater no costado da nau e a lanterna a oscilar, e Pedro pensou que, se a tempestade decidisse afundá-los naquele instante, morreria mais feliz do que vivera.

Mas ela não os afundou.


A tempestade passou ao quinto dia. Ao décimo, avistaram o cabo de Goto. Ao décimo segundo, deram com os ventos certos para Macau.

E foi numa dessas noites mansas, com o mar plano como um espelho de prata e a lua cheia a derramar-se sobre o convés, que Pedro foi à câmara de Ana.

Estava ela à janela traseira da nau, a olhar a esteira que a popa deixava na água. Tinha posto um quimono leve, de seda branca, dos que se usam para dormir, e o cabelo solto descia-lhe pelas costas até à cintura. Quando Pedro entrou, voltou-se devagar, e não disse nada.

Pedro fechou a porta atrás de si.

Tinha-se vestido de homem. Pela primeira vez em duas semanas, tinha posto um gibão de marinheiro emprestado pelo pai, calças, botas. Sentia-se estranho dentro da própria pele, como se o corpo fosse novo.

— Pareces outra pessoa — disse Ana, baixinho.

— Sou outra pessoa.

— És?

— Esta noite sou.

Ela aproximou-se. Pôs-lhe a mão no peito, sobre o gibão, e Pedro sentiu-lhe a palma quente através do tecido. O coração batia-lhe tão alto que ela devia ouvi-lo.

— Ana — disse ele, e a voz saiu-lhe rouca. — Eu nunca…

— Eu sei.

— Eu não sei…

— Eu sei.

E pôs-se em bicos de pés, e beijou-o.

Foi um beijo diferente do primeiro. Aquele tinha sido um beijo de quem se afogava; este era um beijo de quem decidia viver. Os lábios dela tinham sabor a vinho de arroz e a sal do mar, e Pedro fechou os olhos, e abraçou-a, e sentiu o corpo dela contra o seu, fino debaixo da seda, quente, vivo, seu.

Ela afastou-se um pouco. Olhou-o nos olhos.

— Tens a certeza? — perguntou.

— Tenho.

— Não tens.

— Tenho, Ana.

Ela sorriu. Levantou-lhe as mãos e pousou-lhas sobre os ombros, e deixou que a seda branca lhe escorregasse de um deles, e Pedro viu, à luz da lua que entrava pela vigia, a curva pálida de uma omoplata, e ficou sem ar.

— Apaga a vela — disse ela.

— Está apagada.

— Então apaga a lua.

E riu-se, baixinho, contra a boca dele, e Pedro pensou que nunca mais na vida ouviria som tão belo.

Ela puxou-o para a esteira de viagem que tinham estendido no chão da câmara. Pedro deixou-se ir. As mãos dela tremiam quando lhe abriu o gibão; as dele tremiam quando lhe afastou o quimono branco do outro ombro. A lua, do lado de fora da vigia, parecia ela própria reter a respiração.

E foi assim que, naquela noite a meio do mar de leste, com a costa de Macau ainda a três dias de distância e a vida toda à frente, Pedro de mãe nenhuma e pai recém-encontrado deixou de ser sozinho no mundo.


A vigia da câmara olhava para o céu. Lá fora, a lua continuava o seu caminho. Lá em cima, no tombadilho, o capitão Jerónimo fumava um cachimbo encostado à amurada e fingia não saber onde estava o filho.

Sorriu para o mar.

Yuki — disse, baixinho, em japonês. — Yuki, ele está bem.

E a esteira da nau abriu-se na água como uma promessa.


Quando a manhã chegou, Pedro acordou primeiro.

Ana dormia encostada a ele, com o cabelo espalhado pela almofada como tinta derramada, e tinha um meio-sorriso nos lábios que Pedro nunca lhe vira no rosto. A seda branca estava amarrotada. O gibão de marinheiro jazia atirado a um canto. A vigia deixava entrar uma luz dourada de princípio do dia.

Pedro ficou muito quieto, com medo de a acordar. Olhou-a. Olhou-a até saber o rosto dela de cor, até saber o desenho das pestanas, a curva da boca, a pequena cicatriz que ela tinha sob o queixo e que ele nunca lhe tinha visto à luz do dia.

Ela abriu os olhos. Sorriu sem se mexer.

— Bom dia, marido — disse, num sussurro brincalhão.

— Eu não sou…

Cala-te. — E pôs-lhe um dedo sobre os lábios. — Em Macau seremos o que quisermos ser. Aqui, esta manhã, és meu marido. Permite à viúva esta vaidade de uma manhã.

Pedro beijou-lhe o dedo. Depois beijou-lhe a mão. Depois a palma, e o pulso, e o cotovelo, e Ana riu-se, e disse-lhe que parasse, e ele não parou.

Bateram à porta.

Pedro saltou da esteira como se lhe tivessem ateado fogo. Ana, com uma calma de senhora que vinha de séculos de educação, cobriu-se com o quimono e sentou-se direita.

— Quem é?

— Sou eu — disse a voz do capitão Jerónimo, do lado de fora. — Avistámos terra. Macau ao longe.

Pedro abriu a porta uma fresta. O pai estava ali, com a barba por fazer e os olhos cansados de quem não dormira, e olhou primeiro para o filho, e depois, por cima do ombro dele, para Ana sentada na esteira, e o olhar dele não tinha censura nenhuma. Tinha qualquer coisa que se parecia com paz.

— Filho — disse —, anda comigo ao convés. Há que falar.


Estavam encostados à amurada da proa, lado a lado, e Macau era ainda uma linha cinzenta no horizonte, mas era Macau, e isso bastava.

— Vou desembarcar-vos como mulheres — disse o capitão, sem olhar para o filho. — Os fiscais portugueses são piores do que os japoneses. Examinam as listas de passageiros, e na lista vens como aia. Vens como aia até pisares terra.

— Sim, otō-san.

— Em Macau tenho uma casa pequena, no bairro da Praia. — A voz dele estava controlada, mas Pedro percebia o esforço. — Não é grande coisa. Tem dois quartos. Mas é minha. E é tua, agora.

— Pai…

— Deixa-me acabar. — O capitão olhou em frente, para Macau a crescer ao longe. — Tens vinte e um anos. Falas as duas línguas. Sabes o nó dos pescadores de Hirado, sabes as orações das tuas duas mães. Não há, em Macau, coisa que valha mais. — Suspirou. — Eu sou velho, Pedro. Esta foi a minha trigésima travessia. Vai ser a última. Quero acabar a tomar conta de uma mulher que se chame minha, num pátio com uma laranjeira, e quero ter um filho perto de mim.

Pedro engoliu em seco.

— A senhora Ana — continuou o capitão — não pode voltar a casar pela Igreja. O senhor dela está vivo. Mas pode viver sob o teu teto, e ninguém lhe perguntará nada, porque em Macau ninguém pergunta o que não convém. Percebes-me, filho?

— Percebo.

— E percebes — e aqui o capitão voltou-se finalmente para ele, e havia nos olhos dele uma severidade nova — que ela merece um homem que não a abandone? Que ela não merece pagar pelo pecado do pai?

Pedro olhou-o. Olhou-o como nunca tinha olhado para ninguém na vida.

Otō-san, eu não a abandono.

— Promete-me.

— Prometo.

— Promete-me pelo nome da tua mãe.

— Pelo nome da minha mãe.

E o capitão Jerónimo fez uma coisa que nunca tinha feito em vinte anos de capitania: abraçou um homem. Abraçou o filho com força, ali no convés da proa, à vista de toda a marinhagem, e nenhum marinheiro se atreveu a sorrir, porque o capitão Jerónimo nunca chorava em público e estava a chorar.


Desembarcaram em Macau a vinte e um de outubro de mil seiscentos e catorze, ao fim da tarde.

Ana desceu a prancha primeiro, como senhora. Pedro seguiu-a, como aia, com o quimono apertado e os olhos baixos. Os fiscais portugueses contaram os passageiros, marcaram os nomes, deixaram passar.

Na rua, o capitão Jerónimo esperava com uma cadeirinha alugada. Meteu-os lá dentro. Disse ao moço que seguisse para o bairro da Praia.

A casa era pequena e branca, com uma laranjeira ao centro do pátio, tal como ele dissera. Tinha duas divisões em cima e duas em baixo, e uma cozinha com fornilho de carvão, e uma janela que dava para o mar.

Ana entrou. Olhou em volta. Pôs a mão no tronco da laranjeira. Voltou-se para Pedro com lágrimas nos olhos.

Esta é a minha casa?

— É a nossa casa — disse Pedro.

E foi nesse momento, à luz dourada do fim de tarde de Macau, com as gaivotas a guincharem por cima do telhado e o capitão Jerónimo a descarregar o baú na porta, que Pedro percebeu uma coisa que a mãe lhe dissera muitas vezes e que ele nunca tinha entendido: que os deuses, quando dão a uma pessoa um destino partido em duas terras, não estão a castigar — estão a oferecer duas casas em vez de uma.

Pedro entrou na casa. Ana fechou a porta atrás de si.

Lá fora, o capitão Jerónimo sentou-se na soleira de pedra, acendeu o cachimbo, e olhou para a laranjeira até a luz se apagar.

E foi assim que terminou a viagem do quimono roubado, e começou outra coisa, que ainda não tinha nome.


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por Constança Vilhena
NAMBAN.PT · MMXXVI