— Pisa.
A voz do inspetor saiu fria como o aço de uma lâmina mal aquecida.
Maria Yuki olhou para baixo. À sua frente, sobre o chão de tábuas do pátio da feitoria, jazia uma placa de cobre lavrada em forma de cruz, e no meio da cruz a figura de um Cristo magro, com a coroa de espinhos e os olhos voltados para o céu. A placa estava gasta de muitos pés. Outros, antes dela, já tinham pisado.
— Pisa, mulher.
Yuki sentiu as pernas tremerem-lhe. Tinha vinte anos e nunca tinha temido a morte como temia naquele instante. Não era pelo Cristo no metal — o Cristo era de cobre, era ferro, era coisa, e o seu Deus, aquele que a mãe lhe ensinara aos quatro anos, vivia muito mais alto do que numa placa de fundição. Era pela alma. Era pelo gesto.
— Eu não posso, senhor.
— Pisa.
— Senhor inspetor, eu não posso.
E foi nesse momento, com o pé direito a meio do gesto, com a respiração presa no peito e o pátio inteiro da feitoria a olhar, que ela ouviu, vinda da arcada do pátio, uma voz portuguesa que não ouvia havia três anos.
— Esperai.
Yuki levantou os olhos. O sangue fugiu-lhe da cara.
Era ele.
Era João.
E o que ela ainda não sabia, no instante em que aquela voz cortou o pátio da feitoria como um relâmpago, era que o homem que vinha salvá-la era também o homem que a tinha condenado três anos antes — e que voltava agora com uma aliança nova no dedo e o coração rasgado a meio.
Para perceber como uma rapariga de Hirado foi parar a um pátio de feitoria com o pé sobre uma imagem de Cristo, é preciso recuar três anos.
Em mil seiscentos e onze, na primavera, Maria Yuki tinha dezassete anos.
Era filha de Tobei, pescador da baía pequena de Hirado, e de Aiko, mulher cristã da segunda geração, batizada em criança por um padre português que passara pela aldeia em mil quinhentos e oitenta e tantos. A casa Tobei era pobre. Mas era casa decente, com rede sempre limpa e barco em ordem, e a mãe ensinara à filha as orações em latim escrito em caracteres japoneses, num caderninho de papel de arroz que ela escondia debaixo da esteira.
João da Silva Mendes chegou a Hirado em mil seiscentos e nove, na nau do trato. Tinha vinte e oito anos. Era feitor da casa portuguesa de Hirado, intérprete pago a peso de prata, com cargo de fazer a ponte entre os mercadores europeus e os senhores Matsura. Falava japonês razoável e cantonês um pouco; em Macau, donde vinha, deixara casa, mãe, e duas irmãs por casar.
Conheceram-se no cais. Yuki vendia peixe à porta da feitoria duas vezes por semana, com a mãe. João comprava-o para a mesa do capitão. Ao terceiro mês, sabia-lhe o nome. Ao sexto, esperava-a à porta da feitoria com um pretexto qualquer. Ao nono, já lhe falava em japonês baixinho enquanto a mãe regateava o preço do besugo.
Foram dois anos. Dois anos de visitas furtivas pela rua dos artesãos, de presentes pequenos — uma fita de seda chinesa, um espelho de bronze, um livro de orações em latim que ele copiou à mão para ela —, de promessas que ele dizia em português e ela ouvia em japonês porque o coração faz traduções que a língua não sabe.
Beijaram-se cinco vezes. Yuki contava-as. À porta dos fundos da feitoria, debaixo do alpendre, com chuva miúda, em maio de mil seiscentos e onze. Junto ao tanque de carpas do santuário velho, uma manhã cedo. No celeiro abandonado da família dela. Outras duas, em sítios que ela já não conseguia distinguir na memória.
Não foram a mais. Yuki era de família modesta, mas a mãe tinha-lhe metido na cabeça que uma rapariga cristã não dá o que tem antes do casamento, e Yuki acreditava na mãe como acreditava no padre da paróquia clandestina. João respeitou. Não pediu mais. Disse-lhe sempre, sussurrado no ouvido, que ia pedir ao capitão da feitoria autorização para a tomar por mulher pela Igreja, que ia escrever ao tio em Macau, que ia falar com o pai dela.
Em outubro de mil seiscentos e onze, a nau do trato regressou a Macau levando os mercadores que faziam a viagem inversa. João da Silva Mendes ia entre eles, dizia-se que para um assunto de família urgente. Antes de embarcar, encontrou-se com ela uma última vez no celeiro. Disse-lhe:
— Espera-me, Maria. Volto na próxima monção. Trago papéis. Trago o consentimento. Caso contigo na feitoria de Hirado em outubro do ano que vem, com o capelão, à frente do teu pai e da tua mãe.
Beijou-a com tal urgência que Yuki sentiu, naquele instante, que ele estava com pressa de qualquer coisa que ela não percebeu.
Ele não voltou em outubro de mil seiscentos e doze. Não voltou em outubro de mil seiscentos e treze. A nau veio nas duas monções; ele não veio nela. Yuki perguntou ao terceiro feitor, com a vergonha a queimar-lhe a cara. O homem olhou-a com uma piedade que era pior do que insulto e disse-lhe que o senhor João estava em Macau, ocupado com assuntos da família, e que mandava lembranças. Não disse mais.
A mãe morreu em fevereiro de mil seiscentos e catorze, com a gripe.
O pai casou Yuki em março com Tarō, pescador de aldeia vizinha, viúvo de trinta e cinco anos com dois filhos. Yuki não chorou. Tinha jurado a si própria, no dia em que a mãe morreu, que não voltaria a chorar por homem nenhum. Foi para casa do marido. Lavou roupa, preparou refeições, criou enteados, rezou as orações da mãe debaixo da esteira à noite. Tarō era homem rude mas não era mau homem. Bebia, mas só ao sábado. Batia-lhe pouco. Yuki resignou-se.
Em maio de mil seiscentos e catorze, três meses depois do edital de Tokugawa Ieyasu, os senhores Matsura começaram a inspecionar as casas das famílias suspeitas de cristandade. A casa de Tobei, sogro de Yuki agora pai-de-marido, foi visitada na quarta semana de setembro. Encontraram-lhe uma cruz pequena de madeira, escondida no fundo de um cesto de peixe, e o caderninho de orações em latim que tinha pertencido a Aiko, e que Yuki tinha trazido consigo de casa do pai como única lembrança da mãe.
Tarō não era cristão. Pôs-se a gritar. Disse aos inspetores que não sabia, que a mulher tinha trazido aquilo escondido, que ele era homem leal ao senhor Matsura. Os inspetores ouviram. Resolveram, segundo o costume novo das primeiras inspeções, dar à mulher a oportunidade de provar a apostasia em público, num ato formal — e, por essa razão, levaram-na ao pátio da feitoria portuguesa, na presença do capitão e do feitor europeu, para que os bárbaros vissem a pia disciplina do senhor de Hirado.
Foi assim que Maria Yuki, na manhã de quatro de outubro de mil seiscentos e catorze, se viu de pé, descalça, sobre o pavimento de tábuas da feitoria, com uma placa de cobre à frente dos pés e a vida toda à espera de uma decisão.
E foi nesse momento que João da Silva Mendes, feitor da casa portuguesa de Hirado, recém-chegado da nau do trato havia oito dias, atravessou o pátio e disse:
— Esperai.
— Senhor inspetor — disse João, em japonês cuidado, com uma vénia que era só o necessário para não ofender —, peço respeitosamente que me ouçais.
O inspetor, um homem chamado Watanabe, de cinquenta anos, com uma cicatriz vertical no rosto e a postura de quem tinha matado homens em Sekigahara, voltou-se devagar. Olhou-o.
— Senhor feitor. Estamos no meio de um exame.
— Eu sei, senhor. Peço perdão pela interrupção. Mas a mulher conhece-me, e eu conheço-a. — João engoliu em seco. — Não direi mais à frente da assembleia. Permiti-me apenas falar convosco em particular dois minutos. Em troca, ofereço a esta feitoria como anfitriã uma gratificação de boas-vindas para vós e para os vossos homens.
A palavra gratificação — em japonês, o-rei — caiu no pátio com o peso justo. Watanabe ergueu uma sobrancelha. Hirado vivia, naqueles anos, da prata da feitoria. Os funcionários do senhor Matsura sabiam disso. Os inspetores de Edo ainda mais.
— Dois minutos — disse Watanabe.
João virou a cabeça e olhou Yuki pela primeira vez.
Foi um olhar muito breve. Não chegou a meio segundo. Mas Yuki, que tinha estado a respirar pela boca de medo, percebeu três coisas ao mesmo tempo: que ele ainda a amava, que ele já não era livre, e que ele estava a fazer pela vida dela aquilo que ele próprio achava não ter direito a fazer.
E baixou os olhos antes que ele percebesse que ela percebera.
Levou-o à câmara do capitão. O capitão, um homem chamado Vasconcelos, alarmado pela cena no pátio, deixou-os sozinhos sem fazer perguntas — sabia, pelo olhar de João, que assunto não era para discutir à frente do escrivão.
João fechou a porta. Voltou-se.
— Senhor Watanabe — disse, em português, como quem já não tem tempo para cerimónia. — Eu peço-vos a vida desta mulher.
— Senhor feitor, vós sabeis perfeitamente que…
— Eu pago.
Watanabe ficou em silêncio.
João tirou da algibeira uma bolsa de pele. Pousou-a sobre a mesa. Era pesada — Watanabe percebeu pelo som — e era prata, prata da boa, da que vinha em barras pequenas marcadas com o cunho de Macau. Devia haver ali, num cálculo grosseiro, três anos do salário de um inspetor.
— Vós dizei que ela pisou.
— Senhor feitor…
— Vós dizei que ela pisou, que apostatou, que renegou em público, que a deixei eu próprio a chorar a vergonha. Vós dizei o que quiserdes. Eu pago, e ainda mais se for necessário. Mas a mulher não pisa naquela placa. — A voz dele estava calma, mas as mãos tremiam-lhe. — Tendes a minha palavra de homem do trato que ela sai daqui e não volta a ouvir falar de cristandade na vida pública de Hirado.
Watanabe pegou na bolsa. Pesou-a na palma. Olhou-o longamente.
— Senhor feitor — disse, e havia na voz dele uma curiosidade fria —, a mulher é vossa parente?
— Não.
— Concubina?
— Não.
— Então perdoai-me, mas não percebo o gesto.
João engoliu em seco. Ficou um instante calado. Watanabe esperou — esperou com a paciência que tinham os homens com cicatrizes verticais no rosto.
— Foi mulher minha — disse João, finalmente. — Não pela Igreja. Mas no coração. Há três anos. Antes de eu ir a Macau e me casarem com outra. Eu devo-lhe isto, senhor Watanabe. Eu devo-lhe a vida.
Watanabe olhou-o longamente. Depois fez uma coisa que nenhum dos dois esperava: pôs a bolsa de prata outra vez sobre a mesa, e empurrou-a para o lado de João, deixando-a a meio caminho entre os dois.
— Levai metade — disse. — A outra metade chega para mim. Eu tenho quatro filhos e não preciso de me condenar com ouro a mais.
João olhou-o, atónito.
— Senhor.
— Não me agradeçais, senhor feitor. — Watanabe pegou na metade que era sua e guardou-a no gibão. — E não confundais o gesto. Eu sou homem do senhor Ieyasu, e na próxima ronda, se a vossa mulher de coração se mostrar outra vez no caminho de uma cruz pisada, eu pisá-la-ei eu próprio sobre as costas dela. Está claro?
— Está claro.
— Mas hoje, por uma vez na vida, deixai-me eu também ter sido moço apaixonado. Já lá vai o tempo. — Sorriu pela primeira vez, com uma melancolia rápida. — Voltai ao pátio. Eu trato do resto.
João voltou ao pátio. Watanabe falou em voz alta, em japonês ritual, declarando que a mulher Maria Yuki Tobei tinha sido inspecionada, que se tinha mostrado contrita, que tinha jurado pelos antepassados não voltar à fé proibida, e que o senhor feitor da feitoria portuguesa se responsabilizava pessoalmente pela sua boa conduta futura, em nome da paz das relações entre o senhor Matsura e os mercadores do trato.
Yuki não pisou a placa. Os inspetores levaram-na, marcaram-lhe o nome no registo, e libertaram-na três horas depois à porta dos fundos da feitoria, com uma marca de tinta no pulso direito que dizia que estava sob vigilância.
E saiu para a rua. Estava a chover miúdo. Não tinha para onde ir.
João esperava-a do outro lado da rua, encostado a um muro, com um chapéu de palha puxado sobre os olhos.
— Não me toques.
Foi a primeira coisa que ela lhe disse, em três anos.
— Yuki…
— Não me toques, senhor feitor.
João parou. As mãos, que se tinham erguido para a tomar pelos cotovelos, ficaram a meio do gesto. Yuki passou por ele sem o olhar, e foi andando pela rua dos artesãos, com a chuva a colar-lhe o quimono molhado às costas e o cabelo do penteado a soltar-se aos poucos.
João seguiu-a a uma distância de dois passos. Não se atreveu a aproximar-se mais.
— Yuki, o teu marido vai querer perguntar.
— Pois que pergunte.
— Yuki, deixa-me ao menos…
Ela parou. Voltou-se. Olhou-o.
E João, que tinha visto tempestades em duas oceanos e duelos no convés, sentiu naquele olhar uma coisa que nunca tinha sentido antes: vergonha.
— O que vens fazer aqui, João?
— Salvei-te.
— Salvaste-me hoje. — Os olhos dela estavam secos, e era pior do que se estivessem rasos. — Mas mataste-me há três anos, e não vens cá pedir-me perdão por isso, vens cá com a tua bolsa de prata e o teu sotaque novo e a tua aliança nova no dedo, que eu vi, João, eu vi-te a aliança quando levantaste a mão, e queres que eu te agradeça?
João baixou a cabeça.
— Yuki, eu não vinha hoje à feitoria para te encontrar. Eu cheguei à oito dias e estava a tentar ter a coragem de ir à tua casa.
— À minha casa. — Ela quase riu. — Eu já não tenho casa, João. Eu tenho marido. Eu tenho enteados. Eu tenho uma marca de tinta no pulso e um sogro que vai correr comigo da casa antes do anoitecer.
João olhou-a.
— Sogro?
— Casei. Em março.
— Yuki…
— Tu casaste primeiro, em Macau, na catedral, com uma menina chinesa de boa família. — Yuki disse-o sem ódio, com uma cansada exatidão. — O senhor Vasconcelos contou-me ele próprio em janeiro de mil seiscentos e treze, quando lhe perguntei pela centésima vez por que razão não voltavas. Disse-me que eu não devia estar a perder tempo com cartas, que tu já tinhas mulher, e que tinhas sido cobarde por não me ter escrito a dizê-lo. Foi o que ele me disse, João. Não chorei à frente dele. Cheguei a casa e chorei três dias. A minha mãe tinha morrido um mês antes. O meu pai casou-me dois meses depois, com Tarō, porque eu já não tinha mãe a quem pedir conselho. E aqui estou eu, três anos depois, à tua frente, debaixo da chuva.
João, à medida que ela falava, foi sentindo qualquer coisa cair-lhe por dentro como uma laje que se solta.
— Yuki, eu jurei-te.
— Juraste, sim. — Ela sorriu, e foi um sorriso terrível. — E eu sei o que aconteceu. Sei sem precisar que me digas. Chegaste a Macau, encontraste a tua família a precisar do casamento da tua menina chinesa para uma aliança qualquer de comércio, e disseste bem, a Yuki que espere mais um ano, e ela esperou, e tu casaste-te, e tiveste filhos provavelmente, e foste-te esquecendo, e quando voltaste agora…
— Não tive filhos.
Yuki parou. Olhou-o.
— Não?
— A minha mulher não pode ter filhos. — A voz de João estava muito baixa. — É frágil. Está doente. Está em Macau a morrer, Yuki. Foi por isso que vim a Hirado nesta monção. O médico em Macau disse que ela não passa do ano. Eu não me casei por amor. Casei-me por obediência ao meu tio, sem coragem para te escrever a verdade. Tens razão em tudo o que estás a dizer. Eu fui cobarde. Sou cobarde. Sou.
Yuki ficou muito quieta. A chuva continuava a cair, fina, persistente.
— Não me venhas dizer que vieste à monção para ver se eu ainda estava livre.
— Vim.
— João!
— Yuki, vim. — Ele engoliu em seco. — Eu não te pedia nada. Não pedia que largasses marido. Não pedia que voltasses a olhar-me. Eu queria só ver-te de longe, no mercado, à porta da igreja, no que sobrasse de igreja, na rua. Saber que estavas viva. Saber se eras feliz. Saber se tinha sentido a culpa toda destes três anos sem razão.
Ele riu-se, com um riso quebrado.
— Cheguei à oito dias. Bati à porta de tua casa antiga. O teu pai não me reconheceu logo. Quando reconheceu, fechou-me a porta na cara. A vizinha contou-me, pela tarde, que tu te tinhas casado e ido para a aldeia da costa. Eu estava a tentar fazer-me à coragem de ir até lá.
— E hoje?
— Hoje subi ao pátio porque o capitão me chamou para ouvir o procedimento da inspeção. Não fazia ideia de quem era a mulher. Quando te vi, juro-te por Cristo, julguei que era visão da febre. Quando percebi que não era…
João calou-se. A voz não saía.
— …tirei a bolsa do bolso — completou Yuki, baixinho.
— Tirei.
Ela olhou-o muito tempo, debaixo daquela chuva miúda, no meio da rua dos artesãos de Hirado, com o quimono molhado e o cabelo a desfazer-se. Os passantes olhavam-nos de soslaio. Era um casal estranho. Toda a gente os via. Toda a gente fingia não ver.
— Tens uma mulher a morrer em Macau.
— Tenho.
— Estás casado pela Igreja.
— Estou.
— E vens-me dizer o quê, exatamente, João?
João engoliu em seco. Tirou o chapéu. Pô-lo a meia altura, contra o peito.
— Yuki, eu não te venho dizer nada. Eu pedia-te uma coisa só.
— O quê?
— Que comesses comigo uma vez.
Yuki ficou parada.
— O quê?
— Comigo. Numa estalagem. Hoje à noite. Para conversarmos. Para te poder dizer o que não te disse há três anos. Para ouvir o que tens para me dizer. Depois disso, vais para casa do teu marido, e eu vou para a feitoria, e nunca mais nos vemos. Daqui a três semanas a nau parte para Macau e eu vou nela. Não me trazes pecado, Yuki. Eu não te peço carne. Peço-te uma hora.
Yuki sentiu os olhos a encherem-se. A primeira lágrima desde que tinha saído da feitoria caiu-lhe sobre a face e misturou-se com a chuva.
— Tu pedes-me uma hora, João?
— Peço.
— Sabes o que me vai custar uma hora contigo?
— Sei.
— Sabes que o meu marido…
— Sei. — Ele interrompeu-a, com uma dor na voz. — Yuki, eu sei. Não te peço se não soubesses. Diz-me que não. Tens todo o direito de me dizer que não. Eu vou-me embora. Não te incomodo mais. Volto a Macau e morro com a culpa que me cabe.
Houve um silêncio muito longo. A chuva caía. Em algum lugar, longe, um cão ladrou.
Yuki olhou em volta. A rua estava quase vazia agora. As pessoas tinham-se metido nas casas, fugindo da chuva. Só eles os dois.
— Estalagem do Pinheiro Velho — disse ela, baixinho, e a voz quase não saiu. — Conhece-la?
— Conheço.
— Ao pôr-do-sol. — Engoliu em seco. — Eu vou inventar uma desculpa qualquer ao meu sogro. Volto à minha casa amanhã ao meio-dia. Tenho até ao amanhecer.
João abriu a boca. Não disse nada.
— Não me olhes assim, João da Silva Mendes. — A voz dela tremeu. — Eu sei o que estou a fazer. Eu vou pecar contra Deus e contra o meu marido na mesma noite, e eu sei. Mas se eu não fizer hoje, eu morro com isto na boca, e prefiro pecar.
E voltou-se, e continuou a andar pela rua dos artesãos, sob a chuva, deixando-o ali parado com o chapéu na mão.
João ficou muito tempo a olhar para as costas dela a afastarem-se. Quando ela virou a esquina, baixou a cabeça e começou a chorar como não chorava desde criança.
A Estalagem do Pinheiro Velho ficava a meia légua da feitoria, do lado leste do porto, por cima de uma cervejaria de saké barato que servia marinheiros de várias nações. O quarto que João alugou era pequeno, de tatami já gasto, com uma janela que dava para um pátio interior onde uma roseira de outono ainda tinha duas flores brancas teimosas a meio da chuva.
Pagou três mon a mais para que ninguém perguntasse o nome da senhora.
Yuki chegou ao pôr-do-sol, com um chapéu de palha sobre o cabelo molhado e um pequeno embrulho debaixo do braço. Subiu as escadas sozinha. Bateu à porta. Entrou sem dizer palavra.
João estava de pé junto à janela. Voltou-se ao ouvir a porta. Quis falar. Não conseguiu.
Yuki pousou o embrulho sobre a esteira. Tirou o chapéu. Tinha o cabelo ainda meio desfeito do penteado da manhã, com madeixas a cair-lhe sobre as faces. Levantou os olhos.
— Trouxe arroz frito e um pouco de peixe seco — disse, em voz baixa, prática, como se estivessem em casa dela. — Para não passares fome enquanto falamos.
João, sem saber o que fazer das mãos, ajoelhou-se em frente ao embrulho.
— Yuki…
— Come primeiro. — Ela ajoelhou-se à frente dele e desembrulhou a comida com gestos cuidadosos. — Eu também tenho fome. Não comi a manhã toda.
E comeram. Comeram em silêncio, aquele silêncio estranho dos dois que não souberam nunca como começar a conversa que precisam de ter, e que se refugiam na cortesia do gesto. Yuki serviu-lhe arroz com os palitos da estalagem. João pediu-lhe que se servisse primeiro. Ela recusou. Ele insistiu. Sorriram, os dois, do absurdo da cena.
Quando acabaram, Yuki pôs as mãos no colo. Olhou para baixo.
— João.
— Sim.
— Conta-me.
E ele contou. Contou tudo. Contou a chegada a Macau na monção de mil seiscentos e onze, o tio que lhe esperava no cais com a notícia do casamento já combinado, a noiva chinesa de boa família que ele não conhecia, a pressão da mãe e das irmãs para a aliança. Contou a covardia. Contou a carta que escreveu três vezes a Yuki e nunca enviou. Contou a noite de núpcias com uma rapariga doce que ele não amava. Contou os dois anos a tentar amá-la e a falhar. Contou a doença dela, descoberta no segundo ano. Contou o quarto onde ela estava agora, em Macau, a morrer com tuberculose, atendida por uma irmã da Misericórdia que rezava por ela manhã e noite. Contou que Madalena — esse era o nome da mulher — sabia que ele tinha amado outra antes de casar. Contou que ela, no leito de doente, lhe tinha dito uma vez, pegando-lhe na mão:
— João, quando eu morrer, vai a Hirado uma última vez. E se a tua japonesa ainda lá estiver, e se ainda te quiser, não te casas pela Igreja porque já estarás viúvo de mim e a Igreja deixa, mas trá-la para Macau, e cuida dela, que essa rapariga há de pagar pelos pecados que eu não tive maneira de te dar.
Yuki, ao ouvir isto, levou as mãos à boca.
— Ela disse-te isso?
— Disse.
— A tua mulher cristã pediu-te para vires buscar uma mulher de Hirado para Macau?
— Pediu, Yuki.
E João pôs a cara nas mãos.
— Eu chorei. Chorei à frente dela como menino. Beijei-lhe os pés, Yuki. Ela disse-me sai daqui, João, vai despedir-te dos teus negócios, embarca na próxima monção, eu morro descansada se souber que tu vais ter felicidade depois de mim. Foi o que ela me disse.
Yuki ficou muito tempo em silêncio. As lágrimas escorriam-lhe sem que ela parecesse notar.
— Que santa é essa mulher, João.
— É.
— E eu sou casada.
— És.
— Casei em março, três anos depois de me prometeres voltar.
— Eu sei.
— Não posso fugir contigo, João. — Ela engoliu em seco. — Mesmo que a tua santa morra amanhã. Mesmo que tu me leves para Macau num barco. Eu sou casada com Tarō pela tradição da minha terra. Tarō tem dois filhos pequenos que perdiam mãe pela segunda vez se eu fugisse. Eu sou casada, e na minha terra casada é casada. Não é justo, mas é assim.
— Eu sei.
— Eu não fugi contigo.
— Não te peço.
— Então o que vieste cá fazer?
E João, finalmente, disse aquilo que tinha guardado a viagem inteira, e que nunca tinha dito a si próprio em voz alta:
— Vim despedir-me de ti como deve ser. — A voz dele rasgou-se. — Vim dar-te uma noite que eu te devia há três anos. E vim ouvir-te dizer-me que não, para eu poder voltar a Macau e morrer com a tua resposta na boca em vez de morrer com a pergunta.
Yuki olhou-o longamente.
E depois levantou-se. Foi até à janela. Fechou as portadas de papel. Voltou-se. À luz da única lanterna do quarto, com o cabelo meio caído pelos ombros e o quimono ainda húmido de chuva, parecia mais nova do que era e mais velha ao mesmo tempo.
— João.
— Sim.
— Aproxima-te.
João aproximou-se. Ajoelhou-se à frente dela. Yuki pôs-lhe a mão no rosto, com aquela ternura cansada das mulheres que já sofreram tudo o que havia para sofrer.
— Eu vou pecar contra o meu marido esta noite — disse, baixinho. — E vou pecar contra Deus, porque tu estás casado pela Igreja e a tua mulher ainda respira em Macau. Eu sei isto tudo. E faço-o assim mesmo. Sabes porquê?
— Porquê?
— Porque tu salvaste-me de pisar no Cristo esta manhã, e eu devo-te a alma. E porque a tua santa mulher pediu-te que viesses, e eu não a vou desonrar com um não.
João, com os olhos cheios de lágrimas, encostou a testa à dela.
— Yuki…
— Calado, João. Já falaste muito hoje.
E beijou-o.
Foi um beijo lento, sem pressa de quem tem a noite toda. Os lábios dela tinham sabor a chuva e a lágrimas. As mãos dele tremiam, como tinham tremido três anos antes no celeiro da família Tobei, e Yuki sorriu contra a boca dele ao sentir as mãos dele tremerem, e disse-lhe:
— Não tenhas medo de mim, capitão. Eu não sou uma virgem assustada como há três anos.
— Yuki.
— Apaga a lanterna.
E ele apagou-a.
A roseira de outono, do outro lado da janela fechada, perdeu mais uma das suas duas flores naquela noite, mas ninguém viu cair, porque a chuva continuava a cair sobre Hirado e os dois corpos dentro do quarto não estavam a olhar para o pátio nenhum nem para o mundo nenhum, estavam a olhar um para o outro, com uma ternura que tinha esperado três anos por uma noite, e que não voltaria a ter outra.
Acordaram antes do amanhecer.
João tinha o braço por baixo do pescoço de Yuki, e Yuki tinha a face encostada ao peito dele, e nenhum dos dois se atrevia a respirar com mais força para não se quebrar a quietude. Lá fora, a chuva tinha parado finalmente. Ouvia-se, ao longe, um galo a cantar do lado do porto.
— João.
— Sim.
— Eu tenho de voltar.
— Eu sei.
— Antes do meu sogro se levantar. Para que ele continue a pensar que eu fui passar a noite a casa do meu pai. Disse-lhe ontem que o meu pai tinha pedido para eu ir velar com ele, por causa da inspeção.
— Ele acreditou?
— Acreditou. O meu pai está velho. O meu sogro respeita.
João apertou-a um pouco mais. Ela deixou-se apertar.
— Yuki.
— Sim.
— Quero pedir-te uma coisa.
— Pede.
— Quando eu voltar a Macau, vou achar a minha mulher viva ou morta. Se a achar viva, fico até morrer. Se a achar morta… e se um dia, Yuki, um dia, talvez daqui a muitos anos, quando o teu marido for velho ou morto, eu te mandar carta a perguntar se ainda vives e se ainda me queres ver, tu lerás?
Yuki ficou muito quieta.
— Não sei se eu sei ler já em três anos, João.
— Levas a carta a alguém que leia.
Ela sorriu, no escuro.
— Está bem.
— Lês e respondes?
— Leio. — Fez uma pausa. — Não sei se respondo, João. Depende do que vier no caderno do destino. Mas leio.
— Chega-me.
— Chega?
— Chega, Yuki. — Ele beijou-lhe o alto da cabeça. — Eu não te vim pedir mais que isto. Eu não te vim pedir uma vida. Eu vim despedir-me como deve ser. Aprendi esta noite que despedir-se como deve ser quer dizer também não fechar a porta atrás.
Yuki sentou-se na esteira, devagar. Começou a vestir-se. João ajudou-a, com gestos lentos, desajeitados, como se cada laço que ela apertava fosse uma cunha entre os dois.
Quando ela ficou pronta, voltou-se para ele. Tinha o cabelo ainda meio solto. Não tinha vontade de o prender, e de qualquer forma a mãe dela tinha-lhe dito uma vez que o cabelo solto numa madrugada de outubro era prerrogativa das mulheres recém-saídas da chuva ou do amor, e que toda a gente devia perceber e ninguém devia perguntar.
— João.
— Sim.
— Eu pisei a placa esta manhã.
João levantou os olhos, alarmado.
— Não pisaste, Yuki.
— Pisei. — Ela sorriu, com uma estranha calma. — No coração, pisei. Eu estava com o pé a meio caminho. Eu tinha decidido pisar. Tinha decidido salvar-me, João. Era uma viúva da casa Sakuma, era casada nova, tinha enteados, queria viver. Eu tinha decidido pisar.
— Yuki…
— Tu chegaste antes de eu pôr o pé sobre o cobre. Mas se não tivesses chegado, eu tinha pisado, João. E ia para casa, e ia chorar uma semana, e ia rezar pela mãe a pedir-lhe perdão, e ia continuar a viver. Eu não sou mártir. Não vim ao mundo para ser mártir. Veio o meu coração ao mundo para ser amado, e foi pouco amado, e o pouco que foi, foste tu.
João ficou sem palavras.
— Lembras-te disso quando voltares a Macau — disse Yuki, levantando-se. — Lembras-te que tu não me salvaste a alma. Tu salvaste-me da humilhação. A alma já estava decidida a sobreviver. E a alma, no fim, é minha, e há de prestar contas só a Deus. Não te ponhas, lá em Macau, a achar que me deves. Tu pagaste-me esta noite tudo o que eu te emprestei em três anos. Estamos quites, João. Quites.
E pôs-lhe a mão sobre a face uma última vez.
— Vai lá. Casa-te com a tua santa, se ela morrer mesmo. Tem com ela os filhos que ela te deixar ter. Não me esperes. Não me escrevas de mais. Uma carta daqui a dez anos chega. E se a vida nos der, a ti e a mim, num outro outono qualquer, uma reunião — então a gente vê. Mas até lá, vive, João. Promete-me que vives.
— Yuki…
— Promete.
— Prometo.
E ela inclinou-se. Beijou-o uma vez, na boca, sem pressa nenhuma, sem urgência nenhuma — um beijo que era quase de mãe para filho que parte, ou de irmã para irmão, ou de uma mulher para um homem que ela amou tanto que já tinha aprendido a deixá-lo ir.
Saiu. Não olhou para trás.
João ficou sentado na esteira, com as mãos no colo, durante muito tempo.
Maria Yuki Tobei voltou para casa do sogro a meio da manhã, dizendo que o pai tinha passado mal a noite e que tinha precisado de companhia. O sogro, homem cansado, não fez perguntas. Tarō chegou de pesca ao meio-dia. A vida continuou.
Tarō morreu sete anos depois, em mil seiscentos e vinte e um, num temporal de outubro. Yuki criou os enteados sozinha. O mais velho, Saburō, virou pescador como o pai. O mais novo, Kintarō, foi para a forja de Hirado e tornou-se artesão. Os dois adoraram a madrasta toda a vida.
Yuki não voltou a casar. Pretendentes houve dois, na década de mil seiscentos e vinte. Recusou ambos com cortesia.
A carta de João da Silva Mendes chegou a Hirado em mil seiscentos e vinte e três, com a monção. Trazia notícias: Madalena Tang morrera em mil seiscentos e quinze, três meses depois do regresso dele a Macau, em paz, abençoando-o. Ele tinha guardado o luto. Tinha-se mantido viúvo. Tinha um filho adotivo, sobrinho-neto da mulher, a quem amava. Não tinha voltado a casar. Yuki — dizia a carta no fim, com letra trémula —, eu prometi-te que não te escreveria mais de uma vez em dez anos, e cumpri. Não te peço resposta. Apenas te informo que continuo neste mundo, em Macau, e que se um dia o destino te trouxer a estas costas, ou me trouxer a essas, eu estarei com o coração aberto. Vive em paz.
Yuki leu a carta com uma vizinha cristã clandestina que ainda sabia ler português. Ouviu-a até ao fim sem chorar. Depois voltou para casa, dobrou-a, escondeu-a debaixo do tatami no mesmo lugar onde a mãe escondera o caderninho de orações, e nunca a respondeu.
Mas em outubro de mil seiscentos e trinta e um, dezassete anos depois daquela noite na Estalagem do Pinheiro Velho, com Yuki já com trinta e sete anos e uma serenidade nos olhos que toda a gente em Hirado conhecia, um navio pequeno entrou no porto vindo de Macau. A bordo, entre passageiros do trato, vinha um homem alto, de barba grisalha, com um chapéu de palha puxado sobre os olhos e um anel de viúvo no dedo.
Pediu na primeira estalagem do porto que mandassem dizer à senhora Maria Yuki Tobei, viúva de Tarō pescador, que um conhecido antigo a esperava à porta da igreja antiga, ao pôr-do-sol.
Yuki recebeu o recado a meio da tarde. Pousou o cesto da costura. Olhou para o caderninho de orações da mãe, ainda escondido no fundo da arca, e pareceu-lhe que a mãe estava a sorrir.
Vestiu o quimono cor de glicínia que o filho mais novo lhe dera no aniversário. Penteou-se devagar.
E foi à igreja antiga, ao pôr-do-sol, com a luz dourada de um outono de Hirado a derramar-se sobre as ruas dos artesãos como uma promessa que tinha levado dezassete anos a chegar mas que tinha chegado afinal.
Ele estava lá. Ela estava lá. Ninguém os viu falar.
Mas no cais, na manhã seguinte, à partida do navio pequeno para Macau, dizem os marinheiros que viram o capitão feitor a embarcar com uma senhora japonesa de meia-idade ao lado, vestida de cor de glicínia, com um pequeno embrulho debaixo do braço.
E que, antes de subir a prancha, ela voltou-se uma última vez, olhou para a colina onde tinha vivido a vida toda, fechou os olhos um instante, e disse alguma coisa em voz baixa que ninguém ouviu — mas que a vendedora de peixe que passava jurou, mais tarde, ter sido em latim.
E o navio largou.
E foi assim que terminou, com dezassete anos de atraso, a história do pisar da imagem.