EST. MMXXIV · LISBOA · NAGASÁQUI
TOMO I · N.º 1 · MMXXVI
Romance Histórico do Período Nanban · 1543–1650
南蠻

A Filha do Carrasco

Capa de A Filha do Carrasco, por Inês de Bragança
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TOMO I · N.º 001 · POR Inês de Bragança
Cenário
Hirado, Junho–Julho de 1614
Comprimento
Conto · 6 300 palavras
Grau de Ardor
Ardente
Avisos de Conteúdo
martírio perseguição religiosa execução por crucificação discriminação de casta beijo único entre padre e leiga crise de fé não consumada final tragicamente luminoso violência da época

Quando o carrasco de Hirado é encarregado de executar um padre português capturado, é a sua própria filha — desprezada pela cidade, sem nome, sem futuro — que desce à cela com a chave roubada, e descobre, em duas semanas, que há amores que não se vivem mas se guardam, e há mortes que valem por uma vida.

Trazes-lhe arroz e água. Mais nada. Não falas com o homem. Não olhas para o homem. Pousas a tigela e sais. Percebeste, Sayo?

— Percebi, pai.

Repete.

— Pouso a tigela e saio.

E não olhas para ele.

— Não olho.

E foi assim que, num entardecer de junho de mil seiscentos e catorze, com o pai a apertar-lhe o pulso com a mão calejada de quem matava por ofício, Sayo desceu pela primeira vez à cela onde estava preso o padre português, prometendo que não olharia, sabendo que ia olhar, sem fazer ainda ideia de que aquele primeiro olhar seria o início do seu próprio fim.

Mas quando empurrou a porta de madeira pesada com a tigela equilibrada na mão e o homem ergueu a cabeça do canto onde estava encostado, Sayo percebeu, com uma clareza fria, que o pai sabia muito menos do mundo do que pensava saber.

Porque o homem da cela tinha trinta e cinco anos, tinha a barba por fazer, tinha os olhos cinzentos como o céu de Hirado em dia de tempestade, e tinha, na boca apertada de cansaço, qualquer coisa que não era ódio aos guardas, nem medo da morte, nem desafio, nem apostasia.

Era pena.

Pena dela.

E foi nesse instante, com a tigela ainda a equilibrar-se nas mãos, que Sayo, filha do carrasco de Hirado, percebeu que estava perdida.


Sayo tinha vinte e dois anos e era eta.

A palavra, em japonês, queria dizer “muita sujidade”. Era a casta dos que tratavam dos cadáveres, dos animais mortos, das peles cruas, das coisas em que os outros não tocavam. O pai, Hatsuzō, era carrasco oficial do daimyō Matsura havia trinta anos: cortava cabeças por ordem do senhor, enterrava os condenados sem nome em vala comum atrás do morro, lavava as lâminas com água do rio. Era homem calado, de mãos grandes, que bebia sake ao serão e dormia com um sono de pedra. A mãe morrera há doze anos, deixando duas filhas e um filho. O irmão, Tōkichi, ajudava o pai no ofício e tinha herdado-lhe a maneira de calar-se. A irmã mais nova, Hisa, casara aos dezasseis com um curtidor da casta vizinha e morava na aldeia dos eta, do outro lado do rio.

Sayo, a do meio, ficara com o pai. Cozinhava. Lavava. Levava comida aos presos da cadeia pequena que ficava ao lado da casa do carrasco, do lado de fora dos muros da cidade, na fralda do morro onde a gente da casta inferior tinha autorização para viver.

Não tinha amigas. As outras raparigas da idade dela na cidade não falavam com ela. Não tinha pretendentes — nenhum eta da redondeza tinha conseguido convencer Hatsuzō a aceitar dote, e nenhum homem de casta acima sequer lhe olhava para a cara duas vezes. Tinha-se resignado, aos vinte e dois, a viver os anos todos com o pai e o irmão, a herdar a função de cozinheira da cadeia até morrer, a fazer-se velha sem ter sido moça.

Tinha um espelhinho de bronze que herdara da mãe. Olhava-se nele uma vez por mês, ao primeiro dia da lua nova, e fazia uma pequena careta a si própria. Não se achava feia. Tinha a boca pequena, os olhos rasgados, a pele clara apesar do sol. Em outra vida — pensava ela às vezes, a lavar tigelas no rio — talvez tivesse podido ser cortesã modesta de uma estalagem do porto. Mas naquela, era eta.

Os condenados que costumavam passar pela cela do pai eram homens da pior espécie: ladrões reincidentes, assassinos de aldeia, fugitivos das milícias. Sayo levava-lhes comida sem olhar para a cara, e os homens, cansados, magros, sujos, mal lhe respondiam. Estavam para morrer. Não pensavam em mulheres. Sayo pensava neles como pensava nos peixes que limpava: com pena, mas sem confusão.

O padre Cristóvão de Sousa chegou à cela em dezasseis de junho de mil seiscentos e catorze, depois de ter sido apanhado em fuga numa quinta a três léguas de Hirado, onde se escondia havia quatro meses depois do edital de Tokugawa Ieyasu. Trazia uma ferida na cabeça do golpe que recebera ao ser preso, e uma túnica preta gasta que lhe ficava grande nos ombros. Estava destinado a ser executado dentro de duas semanas, depois de o daimyō ter recebido instruções de Edo sobre a forma exata.

Hatsuzō chegou a casa nessa noite e disse à filha:

Vais levar comida ao novo. Padre estrangeiro. Não fales. Não olhes. Esses sabem feitiços.

— Sim, pai.

E foi essa a última noite em que Sayo dormiu sem que o coração lhe doesse.


Da segunda vez, ele falou.

Senhora.

Sayo estava a pousar a tigela no chão de tábuas, em frente a ele. Levantou os olhos sem querer.

O padre estava a sorrir-lhe.

Senhora, perdoai. Eu sei que não deveis falar comigo. Mas eu não falava português há quase um mês, e tenho saudades de me ouvir a mim próprio. Tendes a bondade de me deixar dizer apenas duas coisas?

Ele falava em japonês simples, com um sotaque arrastado mas claro. Sayo abriu a boca. Fechou-a. Não soube o que fazer.

A primeira — continuou ele, sem esperar resposta —, é que vos agradeço. Trazeis-me arroz com mais cuidado do que os carcereiros nunca trariam. Vejo no fundo da tigela que separastes as pedrinhas. Os carcereiros não separam pedrinhas, senhora. Vós separastes. Obrigado.

Sayo sentiu o sangue subir-lhe à cara.

A segunda — disse o padre, e a voz dele baixou — é que vos peço, se algum dia tiverdes oportunidade, de mandar dizer a um homem chamado Padre Mateus, que está escondido na quinta dos Yamamoto perto de Sasebo, que eu morri em paz e que não disse nome nenhum no interrogatório. Sei que é muito pedir. Sei que não tendes razão para o fazer. Mas se Deus algum dia vos puser na mão essa possibilidade, ficar-vos-ei eternamente em dívida.

Sayo, sem dizer palavra, fez uma vénia rápida e quase fugiu da cela.

Lá em cima, na cozinha, com o coração a martelar, sentou-se sobre os calcanhares e ficou a olhar para a brasa do fogão.

Não disse nada, disse a si própria. Não olhei. Não falei.

Mas tinha visto. Tinha visto que o homem tinha a túnica rasgada no ombro direito de uma maneira que pedia agulha. Tinha visto que ele tinha sangue seco no canto da boca. Tinha visto que os olhos dele, quando lhe agradeceu pelas pedrinhas, estavam molhados.

E ela, que tinha vinte e dois anos e nunca fora chamada senhora na vida, foi-se deitar nessa noite com a palavra a martelar-lhe na cabeça como se fosse a corda de um sino.

Senhora. Senhora. Senhora.

E o que ela ainda não sabia, deitada na esteira fina com os olhos abertos no escuro, era que o homem na cela, três paredes mais abaixo, também não estava a dormir, e que tinha estado a rezar a Cristo a pedir-lhe perdão por ter sentido, naqueles dois minutos em que falara com ela, a primeira coisa parecida com alegria humana em quatro meses de fuga.


Da terceira vez, ela falou.

Senhor padre.

Tinha pousado a tigela. Tinha-se levantado. Tinha quase chegado à porta. Voltou-se e disse, num sussurro:

Eu cosi-vos um pano para o ombro. Está enrolado debaixo do arroz. Não vos vai vestir como a túnica nova, mas tapa o roto, ao menos. E embrulhei junto agulha e linha, se quiserdes vós próprio coser.

O padre olhou para a tigela. Levantou os olhos para ela. Sayo viu-lhe os olhos cinzentos brilharem.

Senhora — disse ele, baixinho. — Como vos chamais?

Sayo hesitou. Eta não diziam o nome a estranhos. Era assim. Era a regra. Diziam a profissão da casa, ou diziam a do carrasco, ou diziam eu. Não diziam o nome.

Mas ela, que tinha vinte e dois anos e nunca fora chamada senhora, decidiu, sem pensar, partir uma regra mais.

Sayo.

Sayo — repetiu o padre, e a palavra na boca dele soou diferente, mais doce, com um sopro de português atrás. — Sayo. Agradeço-vos a costura. Eu chamo-me Cristóvão.

Ela fez uma vénia. Saiu.

Lá em cima, na cozinha, sentou-se outra vez sobre os calcanhares. Mas desta vez não ficou a olhar para a brasa. Tirou o espelhinho de bronze de dentro da arca onde guardava a roupa, abriu-o, e olhou-se. Demorada. Atenta.

Não sou feia, pensou. Não sou feia, e ele chamou-me senhora, e eu chamo-me Sayo.

E começou a chorar baixinho, sem soluços, com lágrimas que lhe escorreram pelas faces e caíram no bronze e o turvaram. Não sabia bem por que estava a chorar. Talvez fosse vergonha. Talvez fosse alegria. Talvez fosse a primeira vez na vida em que se via como mulher e não como filha do carrasco.

Mais tarde viria a perceber que estava a chorar pelos três motivos ao mesmo tempo.


Nas duas semanas seguintes, foi acontecendo. Devagarinho. Como acontecem as coisas a que ninguém disse autorização.

Sayo levava a tigela ao meio-dia e à noite. Hatsuzō tinha ordenado dois turnos para que o padre não enfraquecesse antes da execução; o daimyō queria-o vivo, na sua cabeça, para ele aguentar a viagem ao local da execução pública, marcada já formalmente para o dia trinta de junho, na praia, com toda a gente convocada.

Ao meio-dia, Sayo era rápida. Havia carcereiros a entrar e a sair. Pousava a tigela, olhava-o uma vez, dizia bom dia, padre Cristóvão num sopro, recebia bom dia, Sayo na mesma voz baixa, e saía.

Mas à noite, quando os carcereiros estavam já a beber sake na guarita do outro lado do pátio e o pai dela dormia o seu sono de pedra a cinco passos de distância, Sayo ficava mais tempo.

Conta-me.

O que vos conto, Sayo?

Conta-me Évora.

E ele contava. Ele tinha estudado em Évora antes de embarcar para Goa. Contava-lhe das ruas estreitas, da catedral, dos vinhos do Alentejo, dos pastores com cães grandes, das oliveiras milenares com troncos retorcidos como velhas dançarinas. Contava-lhe, e Sayo, sentada de costas direitas em frente à grade, ouvia com os olhos brilhantes, e via tudo, como se ela própria estivesse num monte do Alentejo a olhar a planície dourada ao pôr-do-sol.

E há cá oliveiras assim na vossa terra, padre?

Não, Sayo. Aqui no Japão é tudo verde escuro, é tudo carvalho, é tudo cedro. Em Évora a luz é mais branca. As coisas são mais secas.

E as mulheres?

Cristóvão hesitou.

As mulheres?

Como são as mulheres em Évora?

E ele riu-se baixinho, encostado à grade, com o rosto magro mas com os olhos vivos.

São como vós, Sayo. São de carne e osso, e têm cabelo, e cantam às vezes, e cuidam dos pais. Algumas são de pele mais escura, outras mais clara. Algumas são feias, outras lindas. As mais bonitas estão geralmente prometidas a homens chatos e os homens valentes ficam quase sempre solteiros. Como aqui, suponho.

Sayo riu-se. Foi a primeira vez que se riu desde que era pequena.

E foi também a primeira vez que ele a viu rir, e Cristóvão, do outro lado da grade, ficou um momento parado, com aquele riso baixo da rapariga eta a entrar-lhe nos ouvidos, e sentiu uma coisa que ele tinha reconhecido três vezes na vida, e que tinha enterrado as três, e que agora, a dezassete dias da execução, voltava a aflorar com uma teimosia que ele não soube como combater.

Era ternura.

E à ternura, ele bem sabia, não havia confessor que perdoasse depressa.


Sayo vinha de família budista nominal. Iam ao templo no equinócio, queimavam incenso aos antepassados, repetiam as orações que os monges zen recitavam. Mas era casca de fé, sem fundo. Os eta, em rigor, estavam excluídos de muitos rituais e ninguém esperava deles devoção a sério.

Ao quinto dia, Sayo perguntou-lhe:

Padre Cristóvão.

— Sim.

Por que razão é que ides morrer?

Ele olhou-a através da grade. Havia naqueles olhos cinzentos uma serenidade que Sayo nunca tinha visto em nenhum dos condenados que tinha alimentado nos últimos cinco anos.

Porque não quero pisar uma cruz, Sayo.

Pisai.

Não posso.

Porquê?

Cristóvão ficou em silêncio. Pousou a tigela vazia ao lado. Aproximou-se da grade. Sayo, sem perceber por quê, aproximou-se também. Os rostos dos dois ficaram a um palmo um do outro, separados pelas barras de madeira.

Sayo — disse ele, baixinho, em japonês —, eu vou tentar explicar-vos. Mas a minha língua é fraca para isto. Tenho um Deus, e esse Deus deu o filho dele para morrer por mim. Pisar a cruz é dizer àquele homem morto na cruz: ‘tu morreste por nada, eu não te conheço’. Eu sei que parece pouco, ao pé da minha vida. Mas é tudo o que eu sou. Se eu pisar, eu deixo de ser eu. Continua um corpo a andar pelas ruas de Hirado, mas não sou eu. Estais a perceber?

Sayo olhou-o longamente.

Estou.

Sois inteligente, Sayo.

Sou eta, padre. Não tenho cabeça para coisas grandes.

Sois inteligente — repetiu ele, com firmeza. — E não me chameis eta na minha frente. Isso não me serve.

Sayo sentiu os olhos a encherem-se.

Padre…

Cristóvão.

Cristóvão. — Ela engoliu em seco. — Posso-vos pedir uma coisa?

Pedi.

Quero ser cristã.

Cristóvão ficou parado. Olhou-a através da grade.

Sayo.

Quero ser cristã. Antes de morrerdes.

Sayo, isto não se pede assim. É decisão grande. É…

Cristóvão. — Ela usou o nome dele pela primeira vez, sem o título antes, e a palavra saiu-lhe com uma firmeza que a surpreendeu. — Eu não vos peço por brincadeira, e não vos peço por vos querer agradar. Eu peço-vos porque me dissestes ontem que tendes um Deus que ama os pequenos e os esquecidos. Toda a minha vida fui pequena e esquecida. Toda a minha vida passei a comida pelas grades a homens que iam morrer e que ninguém iria chorar. Eu sei o que é ser pequeno e esquecido, padre. E quero ter um Deus desses. O dos templos não me chega. Nem sequer me deixa entrar de joelhos. Quero o vosso.

Cristóvão olhou-a longamente. Os olhos cinzentos dele estavam molhados.

Sayo, baptizar-te é mais do que ato de momento. Vai-te seguir a vida toda.

Eu sei.

Vai-te isolar mais ainda. Se descobrirem, és perseguida.

Quem é que me persegue mais do que já me persegue, Cristóvão? Sou a mais baixa abaixo das baixas. Já não há para onde descer. Só posso subir.

Ele fez uma pausa. E perguntou, com uma delicadeza nova:

E também me pedes isto porque me amas, Sayo?

Sayo ficou parada. Não tinha esperado a pergunta. Hesitou. E depois disse, com uma honestidade que ainda viria a custar-lhe muito a sustentar:

Sim, padre.

Cristóvão.

Sim, Cristóvão.

E eu, Sayo, não te posso amar de volta como mulher. Sou padre. Jurei votos.

Eu sei, Cristóvão.

Nem nesta vida nem na outra.

Nem nesta nem na outra, eu sei. Eu vou ser cristã. Não vou ser tua mulher. As duas coisas separadas. Tu morres na praia daqui a dezassete dias e eu vou viver mais quarenta anos com o teu Deus e sem a tua cara. Aceito.

Cristóvão fechou os olhos. Quando os abriu, tinha lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces.

Vem cá — disse, baixinho. — Aproxima-te da grade.

Sayo aproximou-se. Cristóvão pôs as mãos nas barras. Sayo pôs as suas, ao lado das dele. Os dedos dele e os dela tocaram-se. Foi a primeira vez. Cristóvão sentiu a pele dela quente, fina, calejada nas pontas. Sayo sentiu os dedos dele frios, longos, com unhas roídas.

Sayo — disse ele, e a voz tremeu —, com a água que não tenho, com o nome que escolheres, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, eu te baptizo. Diz-me como te queres chamar daqui em diante.

Sayo pensou um instante.

Lúcia — disse.

Porquê Lúcia?

Porque ontem dissestes que era a santa que viu a luz no escuro. Eu fui escura toda a vida. Quero ver luz.

Cristóvão sorriu por entre as lágrimas.

Então, Lúcia, és cristã. Para sempre. Mesmo se eu morrer amanhã. Mesmo se nunca mais ninguém te baptizar com água a sério. Tu és cristã desde este instante e Cristo conhece-te o nome.

E ele levou a mão dela aos lábios, através da grade, e beijou-lhe os dedos uma única vez, e foi uma coisa que não devia ter feito, e Sayo, do outro lado, fechou os olhos como quem fecha os olhos a uma luz forte demais para se olhar de frente.


Na noite do oitavo dia desde a chegada, Hatsuzō chegou tarde a casa.

Tinha estado a beber com o primeiro carcereiro. Sentou-se na cozinha. Olhou para a filha.

Sayo.

Pai.

O carcereiro Tomonori diz-me uma coisa estranha.

Sayo, que estava a rachar lenha, parou.

Diz-me que tens passado muito tempo na cela do bárbaro à noite. Que ele está sempre na grade quando os carcereiros entram a meia-noite a verificar. Que ele não dorme, que está como quem está à espera.

Sayo pousou o cutelo da lenha. Pôs as mãos no avental.

Pai, eu pouso a tigela e saio. Faço o que me mandais.

Hatsuzō olhou-a.

Os olhos dele estavam baços de sake mas não estavam baços de inteligência. Ele tinha sido pai. Ele tinha tido mulher. Ele tinha visto, ao longo de trinta anos de cadeia, muitas coisas que os homens não diziam.

Sayo.

Pai.

Filha. — A voz dele baixou. — Eu sou eta e tu és eta, mas nem por isso te quero menos. Tu és a única coisa boa que me sobra dos meus anos. Ouve o que te digo: aquele homem morre dentro de oito dias. Vai morrer mal. O senhor mandou agora ordem nova de Edo. Não vai ser cabeça cortada como aos outros. Vai ser crucificação. Vai ser pendurado na praia, com mais dois fiéis japoneses que apanharam ontem em Sasebo, e vão deixá-lo a morrer ao sol durante dois dias antes de o lancearem.

Sayo sentiu o sangue fugir-lhe da cara.

Pai…

Eu vou ser o homem que vai com a lança ao terceiro dia. — Hatsuzō olhou-a com uma compaixão dura. — É o meu ofício, filha. Não há volta.

Pai. — Sayo ajoelhou-se à frente dele, com as mãos no chão. — Pai, eu não posso.

Posso o quê?

Não posso… deixar.

E percebeu, ao dizer isto, que tinha confessado tudo.

Hatsuzō ficou muito quieto. Pousou a chávena de sake na mesa baixa. Olhou para a filha, ajoelhada à frente dele com as duas mãos no chão e a testa quase a tocar o tatami.

E a boca dele tremeu — uma única vez, como tremem as bocas dos homens que não choraram em vinte anos.

Sayo. Olha-me.

Ela levantou os olhos. Tinha-os cheios de lágrimas.

Tu és minha filha. Tu és eta. Aquele homem é bárbaro do sul, é padre cristão, é condenado por edital do senhor Ieyasu, e vai morrer dentro de oito dias na lança que vou eu próprio enfiar-lhe no flanco. Estás a perceber-me?

Estou, pai.

Não há vida possível para isto, filha. Não é amor que se possa viver.

Eu sei, pai.

Então o que pretendes?

E Sayo, ajoelhada no chão da cozinha do carrasco de Hirado, com a mãe morta há doze anos a olhá-la talvez de algum lado, disse uma coisa que ela própria não sabia que ia dizer:

Pretendo que ele morra a saber que foi amado, pai. Só isso. Pretendo que aquele homem de Évora, que veio até esta ilha para nos falar do Deus dele, morra a saber que houve alguém em Hirado que lhe quis bem. Não é vida que peço, pai. É só uma morte com alguém que o tenha conhecido por inteiro e não como um corpo a sangrar na areia.

Hatsuzō olhou-a longamente.

E depois, devagar, levantou a chávena de sake e bebeu o resto de um trago só.

Filha — disse, e a voz dele estava rouca —, eu sou homem do meu ofício. Mas sou pai antes disso. Vou-te deixar fazer uma coisa, e depois nunca mais vamos falar nisto.

Pai…

Cala-te. Escuta. Amanhã à noite, eu vou beber até cair na guarita com o Tomonori. Fico lá toda a noite. Não volto a casa. Os outros guardas estão de turno só ao amanhecer. A porta da cela tem fechadura simples. A chave está pendurada no prego da cozinha.

Sayo abriu a boca. Não saiu som.

Não vais soltar o homem — continuou Hatsuzō, e a voz dele não era pergunta. — O homem não foge desta ilha sem ajuda de fora, e tu não és mulher de organizar fuga. E mesmo que organizasses, eu próprio teria de ir atrás de vós, e não teria como te perdoar duas vezes na mesma noite. Estamos entendidos?

Estamos, pai.

Vais entrar-lhe na cela. Vais ter com ele a hora que quiseres. Vais-te despedir. Vais-te despedir como uma mulher se despede do homem que ama quando o homem vai morrer e ela fica. Sabes o que estou a dizer?

Sayo, sem olhar para ele, baixou a cabeça até à esteira.

Sei, pai.

E depois fechas a porta. Voltas para casa. E na manhã do trigésimo dia eu vou enfiar a lança no homem, como me mandam. E tu não vens à execução. Ficas em casa. E na noite seguinte choras o que tiveres a chorar, e depois recolhes-te o teu sentir, e vives, ouves, Sayo? Tu vives. Porque tu és a minha única filha que ainda me mora em casa, e eu não te posso perder a ti também. Estás a ouvir-me?

Pai.

E ela, agora, chorava abertamente, com a testa no tatami e os ombros aos soluços. Hatsuzō pôs-lhe a mão no alto da cabeça. Foi um gesto desajeitado, com a mão pesada de carrasco a pousar com uma delicadeza que ele próprio não sabia ter.

Eu sou homem mau, filha — disse, baixinho. — Mato homens por ofício e enterro-os de noite. Mas tu és coisa minha que eu não consegui estragar, e isso vou-te deixar levar contigo até morreres. Anda, levanta-te. Vai dormir. Que amanhã tens noite longa.

E saiu da cozinha sem olhar para trás, e foi para o seu quarto, e fechou a porta, e Sayo ficou no chão muito tempo a chorar lágrimas que eram tantas que ela já não sabia se estava a chorar de tristeza ou de gratidão ou de medo ou de qualquer outra coisa para a qual a língua dela ainda não tinha palavra.


Da nona noite, Sayo chegou à cela com a chave na mão.

Cristóvão olhou-a. Viu a chave. Viu a expressão dela. Não disse nada por um instante. Depois pôs-se de pé, devagar, e encostou-se à grade do lado de dentro.

Sayo.

Cristóvão.

O teu pai sabe?

Foi ele que ma deu.

Cristóvão fechou os olhos um instante.

Senhor — sussurrou, em português. — Senhor, que coisas estranhas vos servem.

Padre…

Cristóvão.

Cristóvão. — Ela hesitou, com a chave a tremer na mão. — Eu não te venho buscar para fugir. O meu pai disse-me que se eu te tirasse daqui ele próprio iria atrás. Não venho buscar-te.

Eu sei, Sayo.

Venho ter contigo. Esta noite. Para dentro. Vai ser a única hora que vamos ter. O meu pai bebe na guarita até de manhã. Os outros carcereiros entram só ao amanhecer.

Cristóvão olhou-a longamente, através da grade. Os olhos dele estavam molhados.

Sayo.

Não me mandes embora, Cristóvão. Eu peço-te por esse Deus que tu morres a defender daqui a sete dias. Não me mandes embora. Eu não vim perverter-te nem condenar-te. Eu vim para te despedir. Para tu não morreres ali na praia sem teres tido na vida o que a maioria dos homens tem.

Eu jurei votos, Sayo.

Eu sei.

Não posso quebrar votos a um homem que me vai matar e que não conheço.

Eu sei.

Não posso quebrá-los nem a oito dias da morte. Acima de tudo a oito dias da morte. Porque quero chegar à frente do meu Cristo limpo, Sayo. Compreendes-me?

Sayo fechou os olhos. Encostou a testa à grade. Os ombros tremeram-lhe.

E depois, com uma voz pequena, disse:

Compreendo.

Cristóvão olhou-a longamente.

Mas — disse ele —, abre a porta. Entra. Vamos passar a noite juntos sem que eu quebre nada. Há mais coisas em ser-se humano do que aquilo que tu pensas, Lúcia. Vem.

Sayo, com as mãos a tremerem, abriu a fechadura. A porta gemeu nos gonzos. Entrou. Fechou-a atrás de si. Deixou a chave no chão, ao lado da soleira, à vista, como prova ao pai de que não tinha intenção de fuga.

E Cristóvão, do outro lado, recebeu-a nos braços. Não como homem recebe mulher. Como irmão recebe irmã que volta de muito longe.

E Sayo, com a face encostada ao peito magro do padre português, sentiu o coração dele a bater contra a sua face — depressa, vivo, ainda em luta — e percebeu que a noite ia ser uma das mais longas e das mais estranhas que o mundo ia conhecer naquele junho de mil seiscentos e catorze.


Estiveram a noite toda sentados, lado a lado, encostados à parede de tábuas da cela.

Cristóvão tinha-lhe dado o canto da túnica para ela apoiar a cabeça. Sayo tinha-lhe pegado na mão e não a tinha largado. Conversaram em sussurros, com a única lanterna de óleo a oscilar no canto.

Conta-me tudo o que terias feito se vivesses — pediu Sayo.

E Cristóvão contou. Contou que, se vivesse, fundaria uma escola pequena para crianças cristãs em Nagasáqui. Que ensinaria gramática latina. Que aprenderia a cozinhar peixe à maneira de Hirado, porque o peixe daquela costa era o melhor que ele tinha provado em todo o oriente. Que escreveria cartas ao seu sobrinho de Évora a contar-lhe das ilhas. Que talvez plantasse, num pequeno terreno do mosteiro, uma oliveira trazida de Goa, só para ver se pegava no solo japonês.

E a oliveira teria pegado, Cristóvão?

Provavelmente não, Sayo. Mas eu teria gostado de ver.

Sayo riu-se baixinho.

Conta-me tu — disse ele, depois.

Não há que contar, Cristóvão. Eu não tenho história.

Tens. Toda a gente tem. Conta-me da tua mãe.

E Sayo contou. Contou que a mãe se chamara Kiku, que tinha tido voz bonita, que lhe cantava à noite uma canção sobre uma garça branca a sobrevoar um arrozal. Que tinha morrido com gripe quando ela tinha dez anos. Que ela, Sayo, tinha guardado o espelho de bronze da mãe e tinha uma teimosia secreta de não casar com nenhum dos eta da redondeza para não ser encurralada no mesmo destino que vira a mãe ter — sem coisa nenhuma de seu, sem nome, com olhos que se fecharam aos trinta e dois anos sem nunca terem visto nada do mundo.

Vais ver o mundo, Lúcia.

Não vou, Cristóvão.

Vais. Vais ver o mundo de outra maneira. Ver o mundo é só ver com olhos novos. Tu hoje à noite estás a ver com olhos novos, e não saíste de Hirado.

Sayo encostou-se mais a ele. Sentiu o peito dele subir e descer com a respiração cansada.

Posso pedir-te uma última coisa?

Pede.

Beija-me.

Cristóvão ficou muito quieto.

Sayo…

Uma vez, Cristóvão. Eu tenho vinte e dois anos. Nunca fui beijada na vida. Nunca um homem da redondeza olhou para mim que não fosse para me chamar nome. Eu vou levar a tua morte na consciência o resto dos meus dias. Dá-me um beijo só. Não te faço pecado grande. É beijo de despedida, não é beijo de carne. Por favor.

Cristóvão olhou-a longamente. Os olhos dele brilharam à luz baixa da lanterna.

Lúcia — disse. — Eu vou pecar pequeno por ti. Que Deus me perdoe. Que Cristo me perdoe. Mas perdoaria, eu acho, porque tu estás pior do que eu, e porque um beijo de despedida a uma cristã nova não é coisa pela qual o céu se feche.

E inclinou-se. E pousou os lábios nos dela.

Foi um beijo ligeiro, contido, sem pressa nem fome, com uma reverência que Sayo nunca teria esperado conhecer. Os lábios dele eram secos. Os dela tremeram. Quando ele se afastou, ficou um segundo de olhos fechados, e ela, sem decidir nada, encostou a fronte à dele.

Obrigada, Cristóvão.

De nada, Lúcia.

E ficaram assim, fronte com fronte, mãos dadas, durante muito tempo, até a luz da lanterna começar a baixar e Sayo perceber, pelo cantar de um galo distante, que a madrugada estava a chegar.

Tenho de ir.

Tens.

Levantaram-se. Sayo foi até à porta. Apanhou a chave do chão.

Cristóvão.

Sayo.

Eu vou estar na praia.

Sayo, não.

Vou. Não me viste o pai dizer que não viesse. Não obedeço. Eu vou estar na praia ao terceiro dia, quando o meu pai te fizer descansar. Vou estar lá no fundo da multidão, com um chapéu, e ninguém me vai ver. E tu vais saber que eu estou lá. E tu não vais morrer sozinho.

Cristóvão olhou-a longamente. Depois assentiu com a cabeça.

Está bem, Lúcia. Vai estar lá. Eu vou olhar para ti e vou morrer a olhar.

Sim.

E saiu.

Fechou a porta. Trancou-a. Subiu a escada da cela. Voltou à cozinha. Pôs a chave no prego. Sentou-se sobre os calcanhares no chão e ficou a olhar para a brasa do fogão que tinha estado apagada a noite toda.

E começou a chorar finalmente. Mas era um choro diferente. Era um choro limpo, sem soluço. Era o choro de quem tinha recebido qualquer coisa que lhe ia durar a vida toda.


A execução fez-se a trinta de junho, na praia leste de Hirado, com cinco pés de cruz fincados na areia e três condenados pendurados a meio da manhã. Cristóvão de Sousa esteve na cruz do meio. À direita, um japonês cristão chamado Paulo Gōro. À esquerda, outro chamado André Kintarō.

Os dois primeiros dias morreram de sede e de exaustão. O sol bateu forte. As gaivotas voaram baixo, mas os carcereiros afastavam-nas com lanças.

Ao terceiro dia, o daimyō mandou ordem para acabar com aquilo, porque a multidão começava a falar — porque os três tinham pedido perdão pelos próprios verdugos, porque Cristóvão tinha rezado em latim com voz firme sempre que lhe restava fôlego, e porque havia já em Hirado quem dissesse que aqueles três bárbaros e japoneses estavam a morrer melhor do que os samurais dos romances antigos.

Hatsuzō, carrasco oficial, com a túnica preta do ofício, com a lança ritual nas duas mãos, atravessou a areia ao meio da manhã.

Aproximou-se de Paulo Gōro primeiro, à direita. Lanceou-o no flanco. O homem morreu rápido. Bem.

Aproximou-se de André Kintarō. Lanceou-o. O mesmo.

Aproximou-se de Cristóvão de Sousa.

Cristóvão tinha os olhos abertos. Tinha-os fixos num ponto qualquer, ao fundo da multidão, onde uma rapariga de chapéu de palha estava parada, sozinha, com uma corda de bambu apertada entre as mãos.

Hatsuzō viu o olhar do padre. Viu para onde olhava. Não voltou a cabeça.

Padre — disse, baixinho, em japonês. — Eu vou-vos dar a paz. Aguentai mais um instante.

Senhor — sussurrou Cristóvão, com a voz já em fio. — Senhor carrasco, agradeço-vos a vossa hospitalidade nestas semanas. E… e dizei-lhe… que ela me vê, e que eu morro a vê-la.

Hatsuzō engoliu em seco.

Eu lhe direi.

E levantou a lança. E enfiou-a, com a precisão de trinta anos de ofício, no flanco esquerdo do padre português, sob a costela. Cristóvão deu um suspiro pequeno. Os olhos dele permaneceram fixos no fundo da multidão, onde a rapariga de chapéu de palha não se tinha mexido. Depois fecharam-se. A cabeça caiu sobre o peito.

A multidão fez silêncio.

E Sayo, ao fundo da multidão, com a corda de bambu apertada entre as duas mãos até as pontas dos dedos lhe ficarem brancas, não chorou. Não chorou em frente a ninguém. Não chorou enquanto Hatsuzō descia a lança. Não chorou enquanto os carcereiros desciam os corpos. Não chorou enquanto a multidão se desfazia.

Só chorou já em casa, à noite, sozinha, com o chapéu de palha pousado a seu lado.

E o pai, quando entrou ao serão, cansado, com a túnica preta dobrada debaixo do braço, olhou-a sem dizer palavra. Sentou-se à frente dela na cozinha. Pôs-lhe à frente uma chávena de sake. Encheu-lha. Bebeu da sua de um trago só.

Filha.

Pai.

Ele disse-me uma coisa antes.

O quê?

Disse: 'dizei-lhe que ela me vê, e que eu morro a vê-la'.

Sayo levou as mãos à boca. E aí, finalmente, deixou-se cair sobre o tatami, e chorou como nunca tinha chorado na vida, com soluços fundos que lhe vinham de um lugar para o qual nunca tinha tido nome.

Hatsuzō ficou sentado em frente a ela. Não a tocou. Não disse mais nada. Bebeu o seu sake sem pressa. Esperou.

Quando a filha se acalmou, ao fim de muito tempo, ele levantou-se, foi ao quarto, voltou. Trouxe consigo um pequeno embrulho de pano cru.

Toma.

O que é?

Tirei-lhe da túnica antes de o levarem para a vala. Achei que ele havia de querer que tu o tivesses.

Sayo abriu o embrulho.

Era um terço pequeno de contas pretas, com um crucifixo de madeira gasta. O terço de Cristóvão. Aquele com que ele tinha rezado todas as noites da cela, e que ela tinha visto entre os dedos dele através da grade.

Apertou-o contra o peito. As lágrimas vieram outra vez, mas mais mansas.

Pai.

Filha.

Obrigada.

Não me agradeças. Tu fazes o que tens a fazer com isso. Eu sou o que sou e tu és o que és. Tu serves teu Deus em silêncio nesta casa, eu sirvo o meu nas valas. Não te incomodo. Não me incomodes.

E Hatsuzō levantou-se, e foi-se deitar.

E Sayo ficou na cozinha, com o terço de Cristóvão entre os dedos, a aprender, devagarinho, as palavras de uma oração que ele lhe tinha ensinado uma noite, na cela, em latim, e que ela nunca tinha repetido em voz alta.

Pater noster, qui es in caelis…

A voz dela tremia, mas não parou.

E foi assim que, na noite de três de julho de mil seiscentos e catorze, na casa do carrasco de Hirado, do lado de fora dos muros da cidade, na fralda do morro onde a gente da casta inferior tinha autorização para viver, nasceu uma cristã clandestina. Tinha vinte e dois anos. Chamava-se Sayo no registo do daimyō. Chamava-se Lúcia no segredo do coração.

E havia de viver mais cinquenta e um anos em Hirado, sem nunca casar, sem nunca falar do padre português a ninguém, ensinando em segredo as orações em latim a três sobrinhas — filhas da irmã Hisa — e a duas raparigas órfãs que a foram chamar ao longo dos anos, atraídas por algo nos olhos dela que ninguém sabia bem o quê.

Morreria em mil seiscentos e sessenta e cinco, com setenta e três anos, com o terço de Cristóvão entre os dedos cruzados sobre o peito.

E na geração seguinte, e na seguinte ainda, em Hirado e arredores, haveria uma família eta descendente da irmã Hisa que rezaria em segredo, durante duzentos anos, a uma oração latina que tinha começado numa cela com uma chave roubada e um beijo de despedida — e que ninguém viria a saber explicar, mas que ninguém viria a esquecer.

E quando os padres voltaram, no fim do século dezanove, encontraram entre os cristãos escondidos de Hirado uma família humilde, descendente de um carrasco, que guardava num altarzinho doméstico um terço de contas pretas com um crucifixo de madeira gasta, e que sabia rezar o Pater Noster todo, em latim, com sotaque arrastado, da forma que uma mulher com nome cristão de Lúcia tinha aprendido, numa única noite, com um padre português que tinha morrido na praia a olhar para ela.

E ninguém soube já contar a história inteira. Mas todos sabiam dizer, ainda, que aquele terço tinha sido bem amado, e que tinha pertencido a um homem que morreu pela fé, e que uma mulher eta o tinha guardado a vida toda como se fosse o anel de noivado que ninguém lhe deu.

E que, contava-se, nas noites de junho mais quentes, ao pôr-do-sol, ainda se ouvia, nas valas onde se enterravam os condenados, qualquer coisa que parecia ser a voz baixa de uma mulher a recitar em latim — não com tristeza, mas com uma estranha alegria — a oração que um homem de Évora lhe tinha ensinado uma noite só, há muitos, muitos anos.


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por Inês de Bragança
NAMBAN.PT · MMXXVI