EST. MMXXIV · LISBOA · NAGASÁQUI
TOMO I · N.º 1 · MMXXVI
Romance Histórico do Período Nanban · 1543–1650
南蠻

O Náufrago de Tanegashima

Capa de O Náufrago de Tanegashima, por Beatriz de Albuquerque
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TOMO I · N.º 003 · POR Beatriz de Albuquerque
Cenário
Tanegashima, Outubro de 1614
Comprimento
Conto · 5 900 palavras
Grau de Ardor
Escaldante
Avisos de Conteúdo
viuvez isolamento social feminino perseguição religiosa contrabando clandestino cena íntima entre adultos separação definitiva final agridoce

Setenta anos depois do primeiro arcabuz ter chegado à ilha, uma viúva de armeiro recolhe das rochas um português meio-morto — e descobre, em três semanas de Outubro, que o coração tem geografias que a honra não conhece.

Está vivo!

Tomoe largou o cesto de algas no chão das rochas e correu como uma criança, com as alpercatas a escorregarem-lhe nas pedras molhadas. O vento de outubro batia-lhe na cara e levava-lhe o cabelo do penteado de viúva, mas ela não reparou. Tinha visto, da beira do penhasco, um corpo a boiar entre as ondas, e tinha pensado mais um morto, ainda outro, e tinha começado a descer só para o tirar do mar antes que as gaivotas o estragassem. Mas agora, ao chegar à areia preta, viu-lhe o peito a subir.

Ajoelhou-se ao lado dele.

Era um bárbaro do sul. Não havia dúvida. A barba castanha, o nariz alto, a pele queimada do sol mas branca por baixo da camisa rasgada, os olhos — porque ele abriu-os naquele instante — de um azul que ela nunca tinha visto em homem nenhum.

Mizu — disse ele, e a voz saiu-lhe num gemido. — Por favor… água…

Tomoe ficou parada, com a mão a meio do gesto. O homem tinha dito mizu em japonês.

— Onde aprendeste japonês? — perguntou ela, em voz baixa, como quem fala com criança febril.

— Macau… — disse ele, e fechou os olhos outra vez. — Cinco anos… na feitoria…

E desmaiou.

E foi assim que, na tarde de quatro de outubro de mil seiscentos e catorze, Tomoe, viúva de Hayato Sakuma, mestre-armeiro de Tanegashima, encontrou nas rochas da praia das Sete Pedras um homem que devia ter morrido três vezes e não morreu — e que trazia consigo, presa ao peito por uma fita de couro encharcada, uma bolsa pesada que ela não teve coragem de abrir.

O que ela ainda não sabia era que, dentro daquela bolsa, vinha o suficiente para a fazer arder em fogueira pública, se a coisa errada caísse nas mãos erradas.


Levou-o para casa às escondidas, na carroça do velho Genzō, o pescador que vivia no fim da rua e que devia favores ao seu falecido marido. Pagou-lhe com duas moedas de prata e com um silêncio que ele jurou ao pôr-do-sol e não sabia se conseguiria manter ao nascer do dia.

— Tomoe-san — disse Genzō, à porta dos fundos —, isto vai dar problemas.

— Já sei.

— Os inspetores chegaram ontem ao porto. Vieram de Edo.

— Já sei.

— Estão a perguntar por bárbaros e por padres. Estão a fazer registos casa a casa.

Já sei, Genzō.

Ela apertou-lhe a mão velha. Tinha vinte e quatro anos e estava farta de ouvir homens a dizerem-lhe coisas que ela já sabia.

— Se me denunciares, eu não te culpo — disse-lhe. — Mas se não me denunciares, peço-te que esqueças que cá vieste hoje.

Genzō olhou-a longamente. Depois encolheu os ombros.

— A senhora minha mulher costumava dizer — murmurou — que ajudar uma viúva é o que mais pesa nas balanças do outro mundo. Eu vou-me esquecer, Tomoe-san. Mas trate da perna dele depressa, que aquele homem cheira a febre.

E foi-se.

Tomoe fechou a porta. Encostou-se a ela. Olhou para o homem deitado sobre a esteira do quarto principal — o quarto que tinha sido do marido, onde dormira com Hayato dois anos antes de o ver morrer com a gripe da primavera — e percebeu, com uma claridade fria, que tinha acabado de fazer a maior tolice da sua vida.

Mas também percebeu, e isto custou-lhe mais a admitir, que não estava arrependida.


Ele só acordou na segunda noite.

Tomoe tinha-lhe lavado a cara com pano molhado, tinha-lhe tirado a roupa rasgada e queimada de sal, tinha-lhe ligado o golpe que lhe sangrava no flanco esquerdo, e tinha — e isto fez-lhe corar até à raiz do cabelo — visto, sem querer, o corpo todo de um homem ocidental pela primeira vez na vida. Hayato não era homem de andar nu. Era recatado, do modo dos artesãos antigos, que dormem de calção e se lavam às escondidas no fundo do pátio. Este namban era diferente. Os ombros dele eram mais largos, os braços mais cobertos de pelo, a pele do peito branca como a barriga de um peixe quando se vira.

E havia, sobre o coração dele, uma cicatriz comprida.

Ela tinha tocado nela com a ponta dos dedos. Não tinha sabido porquê.

Quando ele abriu os olhos na segunda noite, Tomoe estava sentada à cabeceira a remendar uma camisa.

Mulher.

A voz era rouca, mas inteira. Ela levantou os olhos rapidamente.

— Senhor.

— Onde estou?

— Em Tanegashima. Em casa. — Pousou a camisa. — Apanhei-vos das rochas das Sete Pedras. Há dois dias. Tendes uma ferida no flanco e uma pancada na cabeça. A perna direita está inchada mas não partida. — Disse tudo isto depressa, como se a recitação a salvasse de o olhar nos olhos. — Tendes fome?

Ele tentou sentar-se. Gemeu. Ela ajoelhou-se rapidamente e ajudou-o a apoiar-se na almofada.

Mulher, perdoai-me, mas… o que está em volta do meu pescoço?

Tomoe corou. Tinha-lhe deixado a fita de couro com a bolsa, porque não conseguira tirar-lha sem cortar, e porque ele tinha murmurado, no meio da febre, palavras desesperadas em português sempre que ela tocava na correia.

— A vossa bolsa. Não a abri. Está intacta, podeis verificar.

Ele apalpou. Suspirou de alívio.

Senhor — corrigiu, num sopro. — Sou senhor. Não sou mulher nada.

Tomoe quase riu.

— Estais com brincadeira na hora da febre?

— Estou com gratidão. — Ele olhou-a finalmente. À luz amarelada da lanterna, os olhos azuis dele brilhavam de um modo que a fez baixar os seus. — Como vos chamais?

— Tomoe.

Tomoe-san. — Ele pronunciou-o devagar, como se fosse coisa preciosa. — Eu chamo-me Diogo. Diogo Carvalho Pinto. Sou capitão de uma nau de Macau. Vinha para Nagasáqui quando perdemos o mastro. — Fez uma pausa. — Os meus marinheiros?

Tomoe baixou os olhos.

— Apareceram cinco corpos na praia ontem. Dois de pele clara, três da costa da China.

Diogo fechou os olhos.

Eram quarenta e dois.

— Talvez tenham aparecido noutras praias da ilha. Há baías. Há pescadores que recolhem.

— Talvez.

Ficaram em silêncio. Tomoe percebeu, pelas costas dele a tremer ligeiramente debaixo da manta, que o homem estava a chorar e estava a fazer questão de ela não ver.

Não viu. Voltou-se para o lado, fingiu mexer no fogareiro, e deu-lhe o tempo que precisava.

Quando se voltou outra vez, Diogo tinha o rosto seco e os olhos vermelhos.

Tomoe-san — disse, baixinho. — Os inspetores.

— Estão na cidade.

— Eu não posso ficar aqui.

— Não podeis viajar. Tendes a ferida do flanco aberta.

— Tomoe-san, se me encontrarem em vossa casa…

— Já sei o que acontece — cortou ela, e havia na voz dela um cansaço de séculos. — Já sei. Toda a gente me diz hoje o que acontece se vos encontrarem em minha casa. Eu sou viúva, capitão Diogo, não sou parva. Sei muito bem o que faço.

Ele olhou-a longamente.

— Por que razão me salvastes?

Tomoe abriu a boca. Fechou-a. Voltou a abri-la.

— Porque estáveis vivo — disse, finalmente. — E eu não tinha mais nada que fazer naquela tarde.

Foi a primeira mentira que disse a Diogo Carvalho Pinto. Não foi a última.


Tomoe tinha vinte e quatro anos e era viúva havia dezoito meses.

Casara-se aos dezasseis com Hayato Sakuma, mestre-armeiro de Tanegashima, descendente direto daqueles primeiros artesãos que, em mil quinhentos e quarenta e três, tinham aprendido com os náufragos portugueses a fabricar arcabuzes. A casa Sakuma era, por isso, pequena nobreza artesã da ilha, respeitada, com uma forja que ainda fazia armas para os senhores de Kyūshū. Não era casa rica. Mas era casa antiga, e isso valia mais.

Hayato era bom homem. Velho — quarenta e três anos quando se casaram —, sério, calado, dado a leituras chinesas. Tratava-a com respeito frio. Nunca a forçara a coisa nenhuma. Nunca lhe levantara a voz. Tinham tido, ao longo dos seis anos de casamento, exatamente três conversas íntimas, e Tomoe lembrava-se de cada uma delas como quem se lembra de uma chuva forte num verão seco.

Quando ele morrera, em abril do ano anterior, levado pela gripe que entrara com os mercadores de Sakai, Tomoe sentira em primeiro lugar pena. Genuína. Hayato fora bom para ela.

Em segundo lugar, sentira uma coisa que tivera vergonha de nomear durante semanas: alívio.

Em terceiro lugar, e isto fora pior do que o alívio, sentira terror. Porque não tinham filhos — Hayato sempre dissera, com aquela dignidade triste, que talvez os deuses não tivessem querido —, e porque a casa Sakuma passou imediatamente para o irmão mais novo de Hayato, um homem chamado Shōji que tinha trinta anos, dois filhos, uma mulher amarga, e olhos que se demoravam em Tomoe de um modo que a fazia querer cobrir-se com mais uma camada de quimono.

Shōji deixara-a viver na casa pequena dos fundos. Em troca, ela tinha de lavar a roupa da casa principal, ajudar na forja quando preciso, ir ao mercado, e — sobretudo — não voltar a casar, nem aceitar pretendentes, nem dar à família motivo de escândalo. Era a regra.

Em troca, Shōji garantia-lhe casa e comida.

Em troca, ela aceitava esperar a velhice.

Em troca, sustentava-se a honra dos Sakuma.

Em troca, Tomoe morria por dentro um pouco todos os dias.

Foi com vinte e quatro anos, com tudo isto às costas, que ela viu nas rochas das Sete Pedras um homem que devia ter morrido e não morreu, e levou-o para casa.

E os deuses, desconfiou ela mais tarde, não estavam a ser tão cegos como ela pensava.


Ele ficou três semanas.

Na primeira, foi quase só febre e ligaduras e caldos de peixe. Tomoe inventou desculpas para os Sakuma — disse que estava maldisposta, que tinha dores de estômago, que precisava de descansar uns dias —, e Shōji, com uma generosidade que vinha mais da preguiça do que da bondade, deixou-a em paz. A casa pequena dela ficava nos fundos do pátio, separada da casa principal por um muro de bambu, e Diogo estava no quarto de dentro, com a porta sempre fechada. Genzō trazia comida e fingia que era para Tomoe.

Na segunda semana, Diogo começou a andar.

— Tomoe-san.

— Senhor.

— Já vos disse para me chamardes Diogo.

— Não posso.

— Porquê?

Ela não respondeu. Estava a estender roupa nas cordas do pátio e a sentir, pelas costas, o olhar dele através da fenda da porta de papel. Era um olhar que ela já tinha começado a conhecer. Era um olhar com fome — não fome de comida, dessa Diogo já não tinha — mas de outra coisa, mais funda, mais antiga. Era o olhar de um homem que tinha estado três semanas sozinho com uma mulher que lhe lavava as feridas e lhe dava de comer e que era a única coisa quente naquele mundo de areia preta e vento de outono.

Tomoe sabia o olhar. Tinha-o visto, em criança, no olhar do pai para a mãe. Tinha-o visto, em jovem casada, no olhar de outros homens da ilha para outras mulheres que não eram dela. Nunca o tinha visto, em seis anos de casamento, no olhar de Hayato para si.

Era um olhar terrivelmente desejável.

— Porque sois meu hóspede — disse, sem se voltar —, e os hóspedes não se chamam pelo nome próprio.

— Em Macau chamam-se.

— Não estamos em Macau, capitão Diogo.

Ele riu-se, baixinho. Tomoe sorriu para a roupa estendida e fingiu não ouvir.

Na terceira semana, ele tirou a fita de couro do pescoço.

Estavam os dois sentados à frente um do outro, no quarto de dentro, à luz de uma lanterna baixa. Tomoe tinha-lhe trazido uma sopa quente, com tofu e algas, e ele tinha-a comido devagar, com uma cortesia exagerada, como quem agradece ainda à terceira semana o que se agradece à primeira.

Quando acabou, pousou a tigela. Olhou-a.

— Tomoe-san — disse —, eu tenho de vos contar uma coisa.

— Não tendes nada.

— Tenho.

— Capitão, eu não preciso saber. Vós ides melhorar, ides arranjar maneira de chegar a Nagasáqui, e eu vou viver toda a vida a contar a história do namban que apanhei nas rochas e que se foi embora sem me dizer mais do que o nome. Não preciso saber.

— Precisais. — Ele tirou a fita do pescoço com gestos lentos. Pousou a bolsa de couro encharcado, depois seca, agora dura, sobre o tatami, entre os dois. — Porque, se um inspetor me prender aqui, esta bolsa vai-vos arder na fogueira mais depressa do que a mim.

Tomoe ficou muito quieta.

— O que é?

Diogo abriu os cordões. Tirou de dentro um maço de cartas dobradas, embrulhadas em pano oleado. E depois — e Tomoe prendeu a respiração — uma bolsa mais pequena, que tilintou ao pousar.

— Cartas — disse ele, e a voz dele estava sóbria. — De jesuítas em Macau para jesuítas escondidos em Kyūshū. Instruções. Códigos. Lista de cristãos a embarcar no próximo barco.

Pausou.

— Ouro. Suficiente para fretar uma embarcação clandestina e levar uma dúzia de fugitivos para Macau.

Tomoe olhou para a bolsa pequena. Olhou para o maço de cartas. Olhou para Diogo.

— Sois jesuíta? — perguntou, num sussurro.

— Não. — Diogo abanou a cabeça. — Sou capitão-mor. Mas o meu tio em Macau é homem de bem, e prometeu aos padres que esta bolsa chegaria a Nagasáqui num barco amigo. Eu prometi-lhe que a entregava em mãos.

— Sois cristão?

Ele hesitou um instante.

— Sou. Mas nunca fui homem de muita fé. Esta missão era do meu tio. Eu fi-la pelo nome da família, mais do que pelo nome de Cristo.

Tomoe levantou-se. Não disse nada. Foi até ao canto do quarto, ajoelhou-se diante do pequeno altar dos antepassados que a mãe lhe deixara, e ficou muito tempo a olhar para a placa de madeira com o nome póstumo de Hayato. Diogo não se atreveu a falar.

Ela voltou-se finalmente.

— Capitão — disse, e a voz tremia-lhe. — O senhor da minha ilha mandou matar três cristãos no mês passado, na vila da forja. Um deles era padeiro que conhecia a minha mãe. A mulher e os filhos foram presos. Não voltaram. Diga-me: se eu denunciasse esta bolsa amanhã ao inspetor, salvavam-me?

Diogo empalideceu.

— Tomoe-san

Salvavam-me?

— Talvez. — Ele engoliu em seco. — Talvez vos dessem uma recompensa. Sim. Provavelmente.

Tomoe olhou-o longamente. Os olhos dela estavam secos, mas tinham qualquer coisa que ardia.

— Então tendes muita sorte, capitão Diogo — disse —, de eu não ser mulher de pensar com a barriga.

E sentou-se à frente dele outra vez. Pegou na bolsa, com a mão firme. Empurrou-a outra vez para o lado dele.

— Voltai a pôr ao pescoço. Ninguém aqui dentro vai abrir essa bolsa. Eu vou ajudar-vos a chegar a Nagasáqui. — Fez uma pausa. — Mas não me olhe assim, capitão.

— Como?

— Como me estais a olhar agora.

Diogo baixou os olhos.

— Perdoai.

— Não há nada a perdoar.

Mas as faces dela tinham ruborizado, e ele tinha visto, e ela tinha visto que ele tinha visto, e ficaram os dois muito calados a olhar para a tigela vazia da sopa, com o coração a bater de um modo que nenhum dos dois queria nomear.

E foi nesse momento, com a bolsa de ouro a brilhar baixinho à luz da lanterna e a chuva miúda de outono a cair sobre o telhado de palha, que Tomoe percebeu uma coisa que, três semanas antes, teria jurado por todos os deuses não ser possível.

Estava perdida.


Foi numa noite de tempestade que ela o beijou pela primeira vez.

Tinha começado a chover ao fim da tarde, daquela chuva miúda e fria de Tanegashima em outubro, que entra pelas paredes de papel como um sussurro mau. Diogo estava melhor — andava já sem coxear, falava sem se cansar, comia tudo o que ela lhe punha à frente. Faltava só a coragem para a viagem para o continente.

Tomoe tinha-se sentado à frente dele, ao serão, com a costura nas mãos. Era o pano antigo do quimono de Hayato, que ela estava a desmanchar para fazer roupa de homem para o capitão — coisas simples, de viagem, em tons sóbrios, que não chamariam a atenção na estrada.

— Tomoe-san.

— Senhor.

— Posso-vos perguntar uma coisa?

— Podeis.

— O vosso falecido marido.

Ela parou de coser. Levantou os olhos.

— O que tem o meu falecido marido?

— Como era?

Tomoe pousou a costura no colo. Olhou para a chama da lanterna. Pensou.

— Era um bom homem — disse, ao fim de muito tempo. — Era velho, e era bom homem, e ensinou-me a ler chinês quando eu tinha dezassete anos.

— Amavam-se?

A pergunta caiu entre os dois como uma pedra na água parada. Tomoe ficou muito quieta. Não levantou os olhos.

— Capitão — disse, baixinho —, há perguntas que não se fazem a uma viúva.

— Perdoai.

— Não há nada a perdoar. — Ela voltou ao trabalho de agulha, mas as mãos tremiam-lhe. — Hayato… Hayato era bom homem. Eu respeitei-o. Ele respeitou-me. Eu não sei o que é amar, capitão. Aprendi muitas coisas com a minha mãe, mas isso não.

Houve um silêncio. Lá fora, o vento batia nas paredes de papel.

— Sabes — disse Diogo, e a voz dele estava muito baixa —, em Macau costumam dizer que os portugueses casam por amor e os japoneses por arranjo. Eu sempre achei que era preconceito de barbudos.

— E agora?

— Agora não sei.

Tomoe levantou os olhos. Os olhos dele estavam fixos nela, com aquela intensidade azul que ela tinha tentado fugir durante três semanas. Uma rajada de vento bateu no telhado, e a lanterna oscilou, e a luz fez-lhe na cara dele um jogo de sombras que era quase doloroso.

— Capitão — disse Tomoe, e a voz saiu-lhe rouca —, tendes de partir antes de eu fazer uma tolice.

— Tomoe…

Capitão.

Ele pousou as mãos sobre as dela. Foi um gesto lento, como quem pousa um pássaro. As mãos dele estavam quentes.

— Nunca foste tocada com ternura — disse. Não era pergunta.

Tomoe sentiu os olhos encherem-se de lágrimas e odiou-se por isso.

— Não me olheis assim.

— Olho como?

— Como se… como se eu não fosse uma viúva de vinte e quatro anos a quem o cunhado deixou estar nos fundos do pátio em troca de calar a boca. Olhai como… — A voz partiu-se-lhe. — Olhai como as pessoas me olham, capitão. Como uma coisa que está parada à espera de envelhecer.

— Não sois isso.

Sou.

Não sois.

E ele inclinou-se. Pôs-lhe a mão na cara — desajeitada, com aqueles dedos calejados de cordame e leme — e Tomoe, sem decidir nada, encostou a face à palma dele e fechou os olhos.

— Diogo — disse ela, e foi a primeira vez em três semanas que pronunciou o nome dele sem o título antes.

Tomoe.

E então beijou-o ela. Pôs-se em joelhos, atravessou o tatami que os separava, segurou-lhe a cara nas duas mãos, e beijou-o na boca como uma sedenta bebe água. Diogo ficou um instante paralisado de surpresa, e depois pôs-lhe os braços em volta da cintura, e puxou-a para si, e o quimono dela enredou-se na manta dele, e a costura caiu no chão, e a lanterna oscilou outra vez, e ninguém na ilha de Tanegashima naquele momento ouviu nada, porque a tempestade estava a cair com força e o trovão rolava no mar.

Quando se afastaram, Tomoe tinha as faces ruborizadas e a respiração curta.

Senhor Deus — disse Diogo, num sopro.

— Calai-vos.

Tomoe…

— Calai-vos, Diogo. Não digais coisa nenhuma. — Ela pôs-lhe um dedo sobre a boca. Estava a tremer. — Eu sou viúva. Eu sou viúva dos Sakuma e não posso voltar a casar. Eu sei o que estou a fazer e sei o que vai acontecer-me se nos descobrirem. Eu sei, está claro?

Ele assentiu com a cabeça.

— Mas — e aqui ela engoliu em seco, e olhou-o com uma coragem que vinha de muito fundo —, mas vós ides-vos embora dentro de quatro dias. Ides para Nagasáqui e depois para Macau. E eu vou ficar aqui, neste pátio, com o meu cunhado a olhar-me a alma com os olhos baços. E se eu não levar comigo, na memória, uma noite na vida em que tenha sido amada como Deus me devia ter feito ser amada, então eu posso muito bem morrer já amanhã de manhã, porque isto não é vida, é punição.

Diogo olhou-a longamente. Os olhos dele tinham qualquer coisa que Tomoe nunca tinha visto em olhar de homem nenhum: uma reverência. Como se tivesse à frente uma coisa sagrada.

Tomoe — disse —, eu não vos posso prometer que vos levo.

— Não vos peço isso.

— Eu não vos posso prometer que volto.

— Não vos peço isso.

— Eu não vos posso dar nome de mulher minha. — A voz dele tremeu. — Eu sou capitão, eu tenho casa em Macau, eu tenho um tio que me arranjou já uma noiva chinesa de boa família que está à espera há dois anos. Eu não vos posso prometer nada, Tomoe-san.

Eu não vos peço isso, capitão.

E disse-o com tal firmeza, com tal raiva quase, que Diogo prendeu a respiração.

— O que vos peço — continuou ela, e a voz era agora um sussurro — é só uma noite. Uma noite em que eu seja tratada como mulher e não como viúva guardada nos fundos. Uma noite que eu possa levar comigo para o resto da vida, que vos esqueça depressa porque tenho de esquecer, que vos lembre devagar quando estiver velha e ninguém me olhar mais. Uma noite, Diogo. Conseguis dar-me isso?

Diogo, capitão de uma nau de Macau, sobrinho de um senhor do trato, católico de família antiga e jurada, fechou os olhos um instante. Quando os abriu, tinha-os molhados.

— Posso — disse, baixinho.

E a tempestade lá fora, que tinha estado a crescer, decidiu naquele momento partir uma telha de barro do telhado da casa pequena, e a água começou a entrar por uma fresta, e Tomoe riu-se, com um riso quebrado e leve, e disse:

Os deuses estão a chorar de inveja, capitão.

E apagou a lanterna com as próprias mãos.

E a chuva, lá fora, continuou a cair sobre Tanegashima até ao amanhecer, e ninguém — nem o velho Genzō, nem Shōji Sakuma na casa principal, nem os inspetores de Edo no porto — ouviu nada do que se passou naquela noite, na casa pequena dos fundos do pátio, à luz pálida que entrava por uma fresta da telha partida.


Acordou primeiro, como acordava sempre.

A chuva tinha parado. A luz cinzenta de uma manhã de outono entrava pelas paredes de papel. Tomoe ficou muito quieta, sem se atrever a mexer, com a cabeça de Diogo encostada ao seu ombro e o braço dele pesado sobre a sua cintura.

Estou a respirar, pensou. Estou viva. Não morri durante a noite.

E começou a chorar baixinho, sem saber porquê, com lágrimas que escorreram para o cabelo dele e que ele, dormindo, não sentiu.

Quando ele acordou meia hora depois, encontrou-a a olhá-lo nos olhos.

Bom dia, senhora minha.

— Bom dia, capitão meu.

Ele riu-se. Inclinou-se para a beijar na testa, na ponta do nariz, na boca. Tomoe deixou-se beijar. Estavam os dois despenteados, os dois com olheiras de noite mal dormida, os dois nus debaixo da manta, e Tomoe pensou que nunca se sentira tão limpa em toda a vida.

Tomoe-san — disse Diogo —, eu queria-vos pedir uma coisa.

— Não me peçais nada, capitão.

— Deixai-me pedir.

— Pedi.

Ele pegou-lhe na mão. Os dedos dele apertaram os dela com uma força nova.

— Vinde comigo.

Tomoe ficou muito quieta.

O quê?

— Vinde comigo. Para Nagasáqui primeiro, e depois para Macau. Eu sei o que disse ontem à noite. Sei que disse que não podia prometer-vos nada. Mas… — Ele engoliu em seco. — Mas dormi em cima da vossa cabeça oito horas, e acordei agora, e a primeira coisa que pensei foi que, se vos deixasse aqui, ia querer atirar-me ao mar a meio da viagem.

— Diogo…

— Eu tenho a casa em Macau. Tenho meios. Não sois minha mulher pela Igreja, que isso não posso, mas sereis senhora da minha casa, com criadagem, com nome, com respeito. — A voz dele acelerou. — A noiva chinesa pode esperar mais. O meu tio que me amaldiçoe. Tenho dinheiro de meu, tenho a nau, posso fretar uma carreira menor. Não vos prometo riqueza, Tomoe. Mas prometo-vos uma vida que não seja punição.

Tomoe olhou-o longamente. Sentiu os olhos a encherem-se de lágrimas outra vez, mas desta vez de outra coisa, mais terrível ainda.

— Diogo — sussurrou —, se eu disser que sim, vais arrepender-te.

— Não vou.

— Vais.

Não vou, Tomoe.

Diogo — e ela sentou-se na esteira, com a manta puxada para o peito —, escuta-me bem. Eu sou viúva da casa Sakuma. O meu cunhado é homem da ilha. Ele acordou-se ontem com a manhã, e provavelmente já notou que eu não estive na casa principal há quatro dias, e provavelmente já mandou alguém perguntar a Genzō por que motivo está ele a buscar peixe extra. Quando descobrirem que eu fugi, vão atrás de nós. E quando perceberem com quem fugi, vão atrás dele também. — Apontou para a fita de couro, ainda pousada num canto. — E aquela bolsa não vai chegar nunca a Nagasáqui.

Diogo ficou parado.

— Tomoe…

— Eu não vou contigo, Diogo.

A voz dela tremeu, mas as palavras saíram firmes.

Tomoe.

— Não vou. — Ela engoliu em seco. — Vou ajudar-te a sair da ilha. Sei como. Genzō tem um primo em Saza, na costa de Kyūshū, que é cristão antigo e leva mensagens para Nagasáqui. Vou pôr-te num barco de pescador esta noite. Vais em segurança. A bolsa vai contigo. Os jesuítas de Nagasáqui vão receber o ouro. As cartas vão chegar.

E tu?

Ela sorriu. Foi um sorriso terrível, que era ao mesmo tempo paz e desolação.

— Eu fico aqui, Diogo. Volto à casa principal esta tarde, antes do meu cunhado dar pela coisa. Digo-lhe que estive doente uma semana. Choro um bocadinho, finjo-me fraca, beijo-lhe a manga, peço-lhe perdão por ter andado escondida. Ele resmunga e perdoa. E depois — e depois eu vou viver mais quarenta anos nos fundos do pátio, com uma noite na memória, e morro feliz.

Diogo agarrou-lhe os ombros.

Tomoe, eu não te deixo aqui.

Tens de me deixar, Diogo.

— Não tenho.

Tens, Diogo. — Ela pôs-lhe as mãos nas faces. Estava a chorar agora, abertamente, mas com uma serenidade estranha. — Se eu fugir contigo, mandam homens atrás. Apanham-nos antes de chegarmos à costa. Tu morres, eu morro, a bolsa chega às mãos erradas, e doze cristãos em Kyūshū morrem também porque os nomes deles estão naquelas cartas. Estamos a pesar a minha vontade contra doze vidas, Diogo. Eu pago muito por uma noite, mas não pago doze.

Diogo encostou a testa à dela. Os ombros dele tremiam.

Não é justo.

— Não. — Ela sorriu, com os lábios contra os dele. — Não é. Mas é assim.

Ficaram muito tempo em silêncio. Lá fora, um galo cantou em alguma quinta longe.

Tomoe — disse Diogo, finalmente —, deixa-me ao menos prometer-te uma coisa.

— O quê?

— Que volto.

Ela abanou a cabeça, devagar.

— Não prometas, Diogo.

— Volto, sim. Daqui a um ano, a dois, a cinco. Quando isto acalmar. Quando o senhor Ieyasu morrer, quando os edictos abrandarem. Volto aqui à ilha, e venho buscar-te.

Diogo.

— Promete-me que esperas.

Ela ficou muito quieta. Depois sorriu, com uma ternura cansada, antiga, infinita.

— Eu não te prometo que espero — disse, baixinho. — Porque a vida pode trazer-nos os dois muitas coisas, e eu não te quero deixar uma promessa que tenhas de carregar como pedra. Mas posso prometer-te outra coisa, capitão Diogo.

— O quê?

— Que se voltares, e se eu cá estiver, eu vou-te dizer sim. Não importa o que tenha passado. Não importa se já me morreu o cunhado, se tenho criada própria, se a casa caiu, se eu estou a morrer com sessenta anos. Se voltares e eu cá estiver, eu vou-te dizer sim.

Tomoe.

— Promete-me só que, se não cá estiver, não me chores muito. Casas com a chinesa do teu tio. Tens filhos. Vives.

Ele beijou-a então. Foi um beijo longo, sem pressa, em que estavam a guardar um para o outro um sabor para muitos anos. Quando se afastaram, tinham os dois as faces molhadas.

Sim — disse ele, baixinho.

Sim — disse ela.

E foi a única promessa que fizeram.


Naquela noite, o velho Genzō trouxe a carroça à porta dos fundos.

Vestiu-se Diogo com a roupa de viagem que Tomoe tinha cosido, em tons sóbrios, com o cabelo cortado curto à maneira japonesa e um chapéu de palha bem puxado. Ia passar por mercador da costa. Genzō tinha o primo à espera num barco de pesca em Saza, na ponta sudoeste, e dali a Nagasáqui era um dia de cabotagem se os ventos ajudassem.

Tomoe pôs-lhe ao pescoço a fita de couro com a bolsa. Apertou-lhe o cordão. Pousou-lhe a mão sobre o coração.

— Levai isto a Nagasáqui — disse, formalmente, em japonês.

— Levo, senhora.

— Levai com ele a minha alma, que parte dela vai dentro dessa bolsa.

Tomoe-san.

— Calai-vos, capitão Diogo. — Ela sorriu por entre as lágrimas. — Calai-vos e ide.

Subiu ele à carroça. Genzō pegou nas rédeas. Tomoe ficou parada à porta dos fundos, com a mão a apertar o lintel de madeira, sem se atrever a ir mais perto, sem se atrever a olhar para o lado.

Tomoe! — chamou ele, à última hora.

Ela virou-se.

Tu és a mulher que mais amei na vida, ouves? E ainda só te conheço há três semanas. Que será de mim quando voltar?

Ela riu-se, e era um riso quebrado mas livre.

Sereis um homem feliz, capitão. Que é o que vos desejo.

A carroça começou a andar.

Tomoe ficou à porta até ela desaparecer na curva da rua, com a chuva a recomeçar de mansinho, e depois, devagar, fechou a porta dos fundos, atravessou o pátio molhado, entrou na casa principal, ajoelhou-se à frente da cunhada amarga e do cunhado de olhos baços, e disse, com voz branda:

— Estive doente uma semana. Perdoem-me, irmãos.

Shōji resmungou. A cunhada disse qualquer coisa azeda. Tomoe baixou a cabeça e aceitou a repreensão, e foi para a cozinha tratar do jantar, e cortou os legumes com mãos firmes, e ninguém na casa Sakuma jamais soube que tivera, naquele pátio dos fundos, durante três semanas, um náufrago português que era capitão-mor da nau de Macau, e que lhe partira o coração devagarinho, e o levara consigo num barco de pesca para Nagasáqui.


A bolsa chegou.

Os doze nomes na lista escaparam — embarcaram na primeira nau do trato em dezembro daquele ano, com os jesuítas que os acompanhavam, e chegaram a Macau em janeiro de mil seiscentos e quinze, todos vivos. O ouro pagou três passagens clandestinas mais. As cartas foram para Goa. Diogo Carvalho Pinto chegou ao Macau em fevereiro de mil seiscentos e quinze, depois de ter passado pelo Sião e por Cantão.

Casou-se em mil seiscentos e dezasseis com a noiva chinesa que o tio lhe arranjara — uma rapariga doce, de família convertida, que se chamava Madalena Tang e que viria a ser-lhe boa mulher. Tiveram cinco filhos. O segundo, uma menina, chamou-se Tomé — nome de homem para a registar como herdeira, mas dito em casa como Tomé-chan, e Madalena nunca soube por que razão o marido pousava a mão na cabeça da filha sempre que a chamava por aquele nome, e ficava por instantes a olhar para o mar, a leste.

Fez três viagens mais a Nagasáqui antes de a Igreja ser definitivamente fechada em mil seiscentos e trinta e nove. Em duas dessas viagens, a nau não passou por Tanegashima. Na terceira, em mil seiscentos e vinte e quatro, tentou — mas os ventos mudaram e o piloto recusou aproximar-se da ilha. Diogo viu-a ao longe, da amurada, durante meia hora. Não disse a ninguém o que estava a olhar. Quando a ilha se sumiu no horizonte, virou as costas e foi para a sua câmara, e fechou a porta.

E ficou lá dentro até ao anoitecer.

Em Tanegashima, Tomoe Sakuma viveu mais quarenta e um anos. O cunhado morreu em mil seiscentos e vinte e seis, sem filhos varões vivos da segunda mulher (a primeira já morrera), e Tomoe, contra todas as expectativas, herdou a casa pequena dos fundos por testamento — escândalo na altura, sussurro nas vizinhas, mas testamento válido. Viveu sozinha. Ensinou a ler a três meninas órfãs da vila. Foi tida, por todos os que a conheceram, como uma mulher de uma serenidade fora do comum, com um meio-sorriso que nunca se sabia bem para onde estava a olhar.

Morreu em mil seiscentos e sessenta e cinco, com setenta e cinco anos, na primeira manhã da primavera, com vista para o pátio onde tinha estendido roupa a vida toda. As três meninas (já mulheres feitas) cuidaram dela no fim. A última coisa que disse, segundo a mais nova delas, foi:

O capitão chega tarde, mas chega.

E sorriu, e fechou os olhos, e foi-se.

Não voltou a chover em Tanegashima nesse dia. Mas, ao pôr-do-sol, dizem as crianças da vila que viram, da praia das Sete Pedras, uma vela branca ao longe, no mar, parada, durante muito tempo, como se alguém estivesse à espera da maré.

E depois, quando a noite caiu, a vela já lá não estava.


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por Beatriz de Albuquerque
NAMBAN.PT · MMXXVI