EST. MMXXIV · LISBOA · NAGASÁQUI
TOMO I · N.º 1 · MMXXVI
Romance Histórico do Período Nanban · 1543–1650
南蠻

A Última Missa de Hirado

Capa de A Última Missa de Hirado, por Eulália Soares
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TOMO I · N.º 002 · POR Eulália Soares
Cenário
Hirado, Primavera de 1614
Comprimento
Conto · 5 700 palavras
Grau de Ardor
Ardente
Avisos de Conteúdo
perseguição religiosa martírio execução pública casamento forçado iminente crise de votos religiosos violência da época

Quando a filha bastarda do daimyō descobre que o homem ferido escondido no pavilhão de chá é o jesuíta que a sua família jurou entregar, é tarde de mais para o coração obedecer à honra — e o amanhecer trará uma missa que ninguém ousará esquecer.

Ele vai matar-me! — sussurrou Hana, encostada à porta do pavilhão de chá, com as duas mãos a apertar a frente do kosode contra o peito ofegante. — Se o meu pai sabe que eu te escondi aqui, mata-me a mim antes de te matar a ti.

— Senhora — murmurou o homem deitado sobre a esteira, com uma voz que mal lhe saía da boca —, deixai-me sair. Eu vou-me embora. Vou-me embora esta noite, eu juro.

— Com aquela perna? — Hana ajoelhou-se ao lado dele, à luz da única lanterna de papel que se atrevera a acender. — Com aquela perna não chegavas a Nagasáqui nem que o Senhor te levasse aos ombros.

E foi assim, naquela primavera de mil seiscentos e catorze, três meses depois de o senhor de Edo ter mandado queimar todas as igrejas do reino, que Matsura Hana descobriu o sabor amargo das coisas que se decidem sem se poder voltar atrás.

O que ela ainda não sabia era que, três casas mais abaixo, na rua dos artesãos, o homem com quem estava prometida em casamento já tinha começado a desconfiar.


O kakurega — assim chamavam os fiéis àquelas casas-esconderijo — era, no caso dela, o pavilhão de chá ao fundo do jardim da casa Matsura menor, uma construção pequena de duas divisões com paredes de papel encerado, que ninguém da família visitava havia anos. O ramo principal da casa Matsura, lá em cima, no castelo, esses sim eram poderosos. Hana e a mãe pertenciam a um ramo bastardo, esquecido, tolerado por caridade aristocrática. Daí o jardim ao abandono. Daí ninguém perguntar pelo pavilhão.

Daí ele estar ali, três dias antes, quando ela passara a buscar lenha e tropeçara num homem coberto de sangue.

Padre — sussurrou agora Hana, ajustando-lhe a manta sobre o peito. — Tendes febre.

— Não me chameis padre. — A voz dele saiu rouca. — Aqui dentro destas paredes, não me chameis padre.

— E como então?

— Bento. — Os olhos dele abriram-se, escuros como o fundo de um poço. — Chamai-me Bento.

Ben-to. — Hana experimentou a palavra na boca como quem prova um doce estrangeiro. — É nome de santo?

— É nome de homem.

E olhou-a. Olhou-a com aquela intensidade desesperada que Hana viria a conhecer tão bem nas semanas seguintes, a intensidade de quem se está a afogar e vê uma trave a flutuar à superfície.

Ela baixou os olhos.

— Trouxe-vos sopa de miso — disse, e a voz tremeu-lhe um pouco. — E uma camisa lavada do meu finado tio. Tendes de comer. Tendes de comer ou morreis-me aqui em cima da esteira, e depois como é que eu explico isso ao meu pai?

— A senhora vossa mãe sabe?

Hana ficou muito quieta. Mexeu a sopa com os palitos de servir. Não respondeu.

— A senhora vossa mãe sabe — repetiu Bento, num sussurro.

— A minha mãe morreu há um ano.

— Perdoai.

— Não perdoo nada. — Hana levantou os olhos e havia neles uma chama nova. — A minha mãe ensinou-me as orações em latim quando eu tinha sete anos. Ensinou-me a benzer-me debaixo da manta, à noite, quando o meu pai dormia. Disse-me que se algum dia visse um padre em fuga, o escondesse, mesmo que fosse o último ato da minha vida.

Fez uma pausa. Os olhos brilhavam-lhe.

— Ela morreu a pedir um padre que ninguém lhe trouxe. Está a perceber, Ben-to? Ela morreu sem confissão. Sem unção. Sem coisa nenhuma. Mandaram-na para o outro mundo como se fosse cão.

Bento estendeu a mão. Os dedos dele tremiam de febre, mas tocaram-lhe no pulso com uma delicadeza que Hana não esperava. Foi um toque ligeiro, de doente. Mas Hana sentiu-o subir-lhe pelo braço como se lhe tivessem encostado brasa.

— Senhora — disse ele —, a senhora vossa mãe está em paz. Eu vou-vos rezar por ela esta noite. Tenho ainda forças para isso.

E Hana, que havia um ano não chorava por sua mãe, chorou ali, ajoelhada no chão de tatami, com a sopa de miso a arrefecer-lhe ao lado e um padre estrangeiro a apertar-lhe o pulso com dedos a arder em febre.

E o que ela ainda não percebia, embora estivesse perto de perceber, era que aquele toque tinha sido o princípio de uma desgraça anunciada.


Bento de Almeida tinha vinte e oito anos e era jesuíta havia sete.

Tinha nascido em Évora, filho segundo de uma casa pequena de cristãos-velhos, com um irmão mais velho destinado às terras e um lugar a sobrar para quem quisesse a Igreja. Pediu-a aos quinze, embarcou para Goa aos vinte, e viu o Japão pela primeira vez aos vinte e três, em Nagasáqui, num dia de chuva miúda em que pensou que tinha chegado ao paraíso.

Quatro anos depois, o paraíso ardia.

Em janeiro de mil seiscentos e catorze, o senhor Tokugawa Ieyasu mandara o edital. Todos os padres expulsos. Todas as igrejas demolidas. Todos os fiéis japoneses obrigados a registar-se no templo budista mais próximo. Os companheiros de Bento tinham embarcado em Nagasáqui em outubro, em duas naus encarregadas de os levar para Macau e para Manila. Bento devia ter ido na primeira. Não fora.

Ficara escondido em casa de um fiel, na esperança de continuar o ministério em segredo, como tinha visto fazer em outros tempos de perseguição. Mas em fevereiro descobriram-no. Os homens do daimyō de Hirado, que três anos antes ainda toleravam os padres com um sorriso, vieram bater-lhe à porta com lanças. O fiel que o escondia foi morto na soleira. Bento fugiu por uma janela, com uma estocada na coxa, e correu pelos arrozais até cair, três horas depois, no jardim ao abandono que dava para um pavilhão de chá.

Eu devia estar morto — disse-lhe na quarta noite, com a febre a baixar finalmente. — Senhora, eu devia estar morto. Aquele homem morreu por mim e eu fugi pela janela.

— Calai-vos.

— Devia ter ficado.

— Devia ter ficado para quê? — Hana estava a mudar-lhe a ligadura da coxa, e fê-lo com mãos firmes, embora os olhos lhe pudessem fugir uma vez, duas vezes, três, para a pele branca debaixo do pano. — Para morrerdes ali com ele, sem confessardes mais ninguém? Que disparate, Ben-to. Vós sois o único padre que resta nesta região. O Senhor Deus salvou-vos para uma razão.

— A senhora não sabeis o que dizeis.

— Sei muito bem o que digo.

Apertou-lhe a ligadura. Bento engoliu um gemido.

— Perdoai — disse ela.

— Não perdoo nada — disse ele, com um meio-sorriso, devolvendo-lhe a fala.

E Hana, sem querer, sorriu também. E quando o sorriso lhe chegou aos olhos, percebeu que estava a olhar de mais para a boca de um homem que jurara os votos a Deus, e baixou rapidamente a cara para a ligadura, e apertou-a com mais força do que devia.

Bento prendeu a respiração.

— Perdoai — repetiu Hana, e desta vez não foi pela ligadura.

Houve um silêncio. A lanterna de papel oscilou. Lá fora, no jardim, um rouxinol cantou uma vez e calou-se.

— Senhora — disse Bento, baixinho. — Eu peço-vos uma coisa.

— O quê?

— Não vos sentai tão perto de mim.

Hana levantou os olhos. Encontrou os dele. E neles havia uma coisa que ela já tinha visto, mas só nos olhos do homem com quem o pai a queria casar: aquela urgência muda dos homens quando olham para uma mulher que querem.

Só que nos olhos do Ben-to aquela urgência vinha misturada com horror.

— Sou perigosa? — perguntou ela, e a voz saiu-lhe num fio.

— Sois.

— Para vós?

— Para nós os dois.

E Hana levantou-se, e tropeçou no kimono, e saiu do pavilhão sem olhar para trás, e correu pelo jardim até ao quarto, e fechou a porta de papel atrás de si, e sentou-se sobre os calcanhares no chão, com o coração a martelar de uma maneira que ela nunca tinha conhecido.

Era um terrível desgosto. Era uma vergonha. Era uma absoluta tragédia. Era uma coisa que, três meses antes, ela teria jurado por todos os deuses não ser possível.

Era a paixão.

E foi nessa noite que ela percebeu, deitada na cama com os olhos abertos no escuro, que estava perdida.


Ele chamava-se Tarō. Tarō Sakamoto, vassalo da casa Matsura maior, primo afastado do daimyō, vinte e três anos, espadachim razoável, falador. O pai de Hana tinha-o escolhido para ela na primavera anterior, e o casamento estava marcado para o sexto mês daquele mesmo ano de catorze.

— Hana-chan — disse ele, no dia em que Bento estava no pavilhão havia onze dias —, há semanas que andas estranha.

— Não ando estranha nenhuma.

— Andas, sim. — Tarō estava sentado na varanda da casa principal, com uma chávena de chá nas mãos. O pai de Hana tinha saído em viagem oficial, e Tarō aproveitava todos os pretextos para visitar a noiva sem chaperone. — Ontem perguntei-te três vezes se querias dar um passeio até ao templo e respondeste “sim, sim, sim” e nem ouviste a pergunta.

— Estava distraída.

— Com quê?

Hana sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Pousou a chávena com mais cuidado do que era necessário.

— Com a memória da minha mãe — disse, e era meia-verdade, mas era também das mentiras mais úteis que se podem dizer a um homem japonês, porque os homens japoneses não fazem perguntas sobre as mães mortas.

Tarō olhou-a longamente.

— Hana — disse, e a voz dele estava mais baixa. — Sabes o que aconteceu na semana passada na casa do mercador de tecidos?

— Não.

— Encontraram um cristão escondido na cave. Um operário do tinto.

Hana ficou muito quieta. Pegou outra vez na chávena, só para ter qualquer coisa nas mãos.

— E?

— Mataram-no. À frente da família dele. — Tarō fez uma pausa. — A família foi presa. A mulher e os três filhos. Vão ser interrogados sobre quem mais sabia.

Que tristeza.

— Não é tristeza, Hana-chan. É justiça do senhor. — Tarō pousou a chávena. — Eu digo-te isto porque ouvi uns rumores na cidade. Dizem que há mais cristãos escondidos nesta zona. Dizem até que há padres escondidos. Padres bárbaros.

Hana sentiu o coração subir-lhe à garganta. Forçou-se a sorrir.

Padres bárbaros em Hirado? Que disparate. Os padres todos foram embora em outubro. Toda a gente sabe.

— Toda a gente sabe — repetiu Tarō, devagar. — Mas eu, sabes, recebi ordem do meu primo o senhor para ir verificando as casas onde vivem cristãos antigos. Mesmo as casas das famílias respeitáveis.

Olhou-a fixamente.

— Sabes que a tua falecida mãe foi batizada, não sabes?

— A minha mãe foi obrigada a renegar.

— Sei. Mas há quem não esqueça.

E sorriu. Foi um sorriso terrível, daqueles que os homens dão quando estão a ameaçar e querem que a outra parte saiba que estão a ameaçar e ainda assim não está a ser dita ameaça nenhuma.

Hana baixou os olhos.

— Tarō-san — disse, e esforçou-se para que a voz saísse leve. — Daqui a três meses sou tua mulher. Não há nesta casa nada que tu não venhas a saber, nem nada que eu te queira esconder. Vem visitar a casa quando quiseres. Vem inspecionar o que quiseres. Eu não tenho medo.

E levantou os olhos, e olhou-o, e o olhar dela tinha o aço todo das mulheres Matsura que tinham morrido nas guerras antigas.

Tarō sustentou o olhar um instante. Depois sorriu, descontraído, e bebeu um gole de chá.

— Tens razão — disse. — Tens absolutamente razão. Não há nesta casa nada que se esconda da família.

Mas Hana, quando ele saiu, ficou sentada na varanda muito tempo, e percebeu que tinha ganhado talvez uma semana. Talvez duas. Não mais.

E Bento ainda mal andava.


— Tendes de partir.

— Senhora…

— Tendes de partir, Ben-to. — Hana entrou no pavilhão como uma trovoada e fechou a porta atrás de si, e a voz tremia-lhe. — O homem com quem me querem casar anda a fazer perguntas. Vai voltar. Talvez já amanhã, talvez na semana que vem, mas vai voltar com homens, e vai revistar a casa, e vai-vos encontrar.

Bento pôs-se de pé com dificuldade. A coxa estava melhor — Hana cuidava dele havia onze dias, com unguentos que a mãe lhe ensinara —, mas ainda mancava.

— Para onde?

— Para Nagasáqui. Há lá ainda fiéis. Há lá ainda barcos para Macau, mesmo agora, a pagar bem.

— E como chego eu a Nagasáqui? Com esta perna?

Hana hesitou. Tirou de dentro da manga uma bolsa pequena. Estendeu-lha.

— Aqui estão dezasseis mon de prata. É tudo o que tenho de meu, foi o que a minha mãe me deixou. E tenho um conhecido pescador, em Saza, que era cristão antigo. Levou já outros padres. Posso mandar-lhe recado amanhã.

Bento olhou para a bolsa. Não a tomou.

— Senhora.

— Tomai.

Senhora. — A voz dele estava rouca. — Não posso aceitar este dinheiro.

— Podeis sim.

— Não posso. — Bento abanou a cabeça. — Não tendes mais nada que seja vosso, e eu vou-vos roubar até o último mon? Não posso, Hana.

Era a primeira vez que ele a chamava só pelo nome. Sem senhora. Sem Hana-san. Hana, só.

Hana sentiu as pernas falharem-lhe e teve de se sentar sobre os calcanhares.

— Vós… — começou ela, e a voz não saiu. Pigarreou. Tentou outra vez. — Vós estais a recusar-me?

— Estou.

— Ben-to. — Hana ergueu os olhos. Tinha-os marejados. — Ben-to, isto não é dinheiro. Isto é o que me resta de minha mãe. Se vós morrerdes na estrada para Nagasáqui porque não tinhas com que pagar um pescador, eu nunca mais vou poder olhar para o céu e pensar que ela está lá em cima a olhar-me. Percebeis?

Bento não respondeu logo. Ajoelhou-se à frente dela — devagar, por causa da perna — e ficou os dois a olhar-se, na luz baixa da lanterna.

— Hana — disse ele, e a voz partiu-se-lhe ao meio. — Hana, eu… eu não sei o que fazer convosco.

— Tomai a bolsa, é o que tendes de fazer.

— Não falo da bolsa.

E pôs-lhe a mão no rosto.

Foi uma mão de doente, ainda ligeiramente quente de febre residual, com calos de remador da viagem antiga. Pousou-lhe na bochecha esquerda como se pousasse numa chama que tivesse medo de apagar. E Hana, sem pensar, sem decidir nada, fechou os olhos e encostou a cara à palma dele.

— Eu jurei votos — disse Bento, num sussurro.

— Eu sei.

— Castidade. Pobreza. Obediência.

— Eu sei.

— Sou padre desde os vinte e um anos.

— Eu sei, Ben-to.

— Hana, eu nunca…

— Eu sei.

Ele inclinou-se, e a testa dele encostou à dela. Ficaram assim muito tempo, ajoelhados frente a frente sobre o tatami, com a respiração misturada e os corações a bater como tambores num festival.

— Se eu vos beijar — disse Bento, e a voz era um murmúrio — perco a alma.

— Se vós não me beijardes — respondeu Hana — perco eu a minha.

E foi nessa noite, na noite décima primeira de um mês de abril que entrava pela primavera dentro com cheiros de cerejeira e de terra molhada, que o padre Bento de Almeida, da Companhia de Jesus, beijou na boca uma rapariga japonesa de dezanove anos, e a rapariga deixou-se beijar com os olhos fechados e as mãos a tremerem-lhe sobre os ombros do hábito surrado, e nenhum dos dois tinha nesse momento religião nenhuma, e nenhum dos dois quis ter.

Quando se afastaram, Hana tinha lágrimas a correr-lhe pela cara, mas estava a sorrir.

Pecámos — disse Bento, e quase se riu.

— Pecámos um beijo só — corrigiu Hana. — Será conta pequena no Juízo.

E pousou-lhe a cabeça no ombro, e Bento abraçou-a, e ficaram assim, no chão do pavilhão de chá, com as mãos entrelaçadas e o cheiro a cerejeira a entrar pelas frestas das paredes de papel.

— Tens de partir — sussurrou Hana ao fim de muito tempo.

— Eu sei.

— Amanhã.

— Eu sei.

E ele apertou-a mais.


Mas amanhã não houve.

Tarō chegou na manhã seguinte, antes do meio-dia, com cinco homens armados.

— Hana-chan — disse, na soleira da casa, com um sorriso desagradável. — Disseste-me que podia inspecionar a casa quando quisesse. Trouxe alguns homens.

Hana estava lavada, vestida, penteada. Tinha-se levantado às quatro da manhã para o efeito. Tinha levado a Bento, ainda na escuridão, comida para três dias e a bolsa de prata, e dito-lhe que se mantivesse imóvel debaixo do pavimento elevado do pavilhão, num esconderijo que a mãe usara em criança para se esconder das amas. Era apertado. Sem ar quase. Mas era invisível.

Tarō-san! — disse Hana, e fez uma vénia com calma estudada. — Que bom ver-te. Faz favor de entrar. O meu pai voltou ontem à noite e está a despachar correspondência, mas posso chamá-lo se quiseres.

Os olhos de Tarō piscaram. Não esperava que o pai estivesse de regresso. Hana tinha mentido — o pai voltava só dali a três dias —, mas era a única coisa que conseguira inventar.

— Não, não — disse Tarō, recompondo-se. — Não quero incomodar o senhor. Eu só quero dar uma volta pelos jardins, ver os anexos. É rotina.

— Faz favor.

E Hana acompanhou-o ela própria, com um sorriso que lhe doía nas faces, e Tarō fez perguntas sobre os jardins, e sobre os anexos, e sobre a casinha das ferramentas, e sobre a horta, e sobre o tanque das carpas, e finalmente — depois de rodear o assunto durante uma hora — apontou para o pavilhão de chá.

— E aquilo?

— É o pavilhão da minha falecida mãe. Está fechado há um ano.

— Quero ver.

— Tarō-san

Quero ver, Hana.

A voz dele tinha mudado. Não havia já o sorriso. Os cinco homens armados aproximaram-se ao mesmo tempo, sem combinação, como cães adestrados.

Hana sentiu o sangue fugir-lhe da cara.

— Está bem — disse, e tirou a chave da manga. — Mas peço-te respeito. É a memória da minha mãe que está ali dentro.

Abriu a porta. Entrou primeiro. Tarō entrou atrás dela, com a mão sobre o punho da espada.

A divisão estava limpa. A esteira enrolada num canto. As paredes vazias. A lanterna de papel apagada. Não havia comida, não havia roupa, não havia nada.

Tarō olhou em volta. Franziu o sobrolho. Bateu com o pé no chão. Depois noutro ponto. Depois noutro.

Bateu por cima do esconderijo.

Aqui há oco — disse.

Hana sentiu as pernas falharem-lhe. Encostou-se à parede de papel para não cair.

— Tarō-san, é o pavimento, tem sempre…

— Cala-te.

Ele ajoelhou-se. Levantou um dos tatami. Por baixo, tábuas. Bateu nas tábuas. Uma soou oca.

Tarō olhou-a por cima do ombro. O sorriso voltou-lhe, agora terrível.

Há ali alguém?

— Tarō, eu juro-te que…

Há ali alguém, Hana?

Hana olhou para ele. Olhou para os cinco homens à porta. Olhou para a tábua.

E foi nesse momento, com uma clareza absoluta, que percebeu duas coisas. A primeira é que ia morrer. A segunda é que, se Bento saísse dali com vida, valia a pena.

— Há — disse, e a voz saiu-lhe surpreendentemente firme. — Há lá dentro o homem que eu amo.

Tarō ficou parado, com a tábua a meio do gesto.

O quê?

— O que ouviste.

E Hana, com toda a serenidade de uma mulher que já não tem nada a perder, ajoelhou-se à frente da tábua oca, e bateu três vezes.

Ben-to — disse, em japonês, alto. — Ben-to, sai daí. Acabou.


Tu és uma cristã.

Tarō tinha-a posto de joelhos no jardim, ao lado de Bento, com as mãos amarradas atrás das costas. Os cinco homens estavam alinhados. Um deles tinha um pé sobre as costas de Bento, que estava também ajoelhado. A coxa do padre sangrava outra vez — caíra mal ao sair do esconderijo.

Sou.

Há quanto tempo?

— Desde os sete anos. A minha mãe ensinou-me.

— A tua mãe foi obrigada a renegar.

— A minha mãe nunca renegou no coração. Nem eu.

Tarō ficou muito quieto. Estava pálido. Hana percebeu, com uma estranha lucidez, que ele estava menos com raiva do que humilhado. Tinha-se apaixonado por ela à sua maneira de espadachim de província, e a noiva tinha-se apaixonado por um padre estrangeiro em fuga. Era tragédia para ele também.

Quase teve pena.

— Eu posso salvar-te — disse Tarō, baixinho, para que os homens não ouvissem. — Se renunciares agora, à frente de todos. Se pisares a cruz. Se disseres que ele te enfeitiçou, que te violou, eu posso dizer ao senhor que foi sequestro. Posso ainda casar contigo daqui a um ano, quando isto tudo passar.

Hana olhou-o.

— Tarō-san — disse, e a voz dela tinha uma doçura quase compassiva. — Tu não percebes. Eu não fui violada. Eu não fui sequestrada. Eu escondi-o porque quis. Eu beijei-o porque quis. Eu morro com ele porque quero.

Hana, por amor dos antepassados…

— Os meus antepassados — disse ela, e levantou o queixo — estão todos no Paraíso à minha espera. Todos. Mesmo aqueles que nunca foram batizados, porque o Deus em que acredito é misericordioso e as portas do céu são largas. E é lá que vou ter com a minha mãe, daqui a pouco, e ela vai-me abraçar, e vai dizer-me “fizeste bem, filha”, e eu vou descansar.

Bento, ajoelhado ao lado dela, ergueu a cabeça com dificuldade. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas.

Hana — sussurrou.

— Calai-vos, Ben-to. Deixai-me dizer-lhe.

Voltou-se para Tarō.

— Leva-nos ao senhor teu primo. Façam de nós o que quiserem. Mas não me peças nunca mais para te chamar marido, porque já tenho um, e está aqui ao meu lado, e nem que tu o mates dez vezes ele continua a ser meu.

Tarō olhou-a muito tempo. Algo nos olhos dele se rasgou — não foi raiva, foi outra coisa, mais funda. Voltou-se de costas. Deu uma ordem aos homens. Os homens levantaram Bento e Hana, e levaram-nos pela cidade dentro, em pleno meio-dia, com toda a gente a olhar.

Hana caminhou direita. Não chorou. Olhou em frente.

E mesmo ao lado, mancando, com a coxa a sangrar e as mãos atadas, Bento ia a rezar baixinho em latim, e Hana, que sabia o latim que a mãe lhe ensinara, percebeu que ele estava a rezar pela alma dela.

Ben-to — disse-lhe, num sussurro. — Reza pela minha. Mas reza também pela tua. As nossas almas vão juntas, agora.

E ele, sem olhar para ela, disse:

Amen.


Houve julgamento. Foi rápido. O daimyō de Hirado, primo de Tarō, era homem prático. O caso era escândalo: filha de ramo Matsura escondendo padre estrangeiro, professando-se cristã em pleno tribunal. Não havia hipótese de discrição. E o senhor Ieyasu, em Edo, acabara de mandar uma circular a exigir que os cristãos persistentes fossem executados publicamente como exemplo.

Foi marcada execução para o dia seguinte, ao amanhecer, na praia.

Naquela noite, prenderam-nos em celas separadas. Hana sentou-se sobre os calcanhares, encostada à parede de madeira, e tentou rezar. Não lhe vinham as palavras. Vinha-lhe à cabeça a voz da mãe a cantar uma canção de embalar. Vinha-lhe à cabeça o sabor do beijo do Ben-to. Vinha-lhe à cabeça a cara de Tarō no jardim, quando percebeu que ela amava outro. Vinha-lhe tudo menos as orações.

Pelo meio da noite, abriram-lhe a porta da cela.

Era Tarō. Sozinho. Com uma lanterna.

Hana-chan.

Ela levantou os olhos. Não respondeu.

Ele entrou. Fechou a porta. Sentou-se no chão à frente dela. Pousou a lanterna entre os dois. À luz amarelada, parecia mais novo do que era. Parecia um rapaz.

— Eu não vim aqui salvar-te — disse, baixinho. — Já não posso. O meu primo deu a ordem.

— Eu sei.

— Mas vim trazer-te uma coisa.

E tirou de dentro do gibão um embrulho pequeno. Estendeu-lho. Hana olhou-o sem perceber.

— Abre.

Ela abriu, com as mãos ainda meio amarradas.

Era um terço. De contas pretas, gastas, com um pequeno crucifixo de prata no fim. O terço da mãe dela. O terço que o pai tinha mandado destruir um ano antes, no dia em que a mãe morreu.

Hana olhou para Tarō, e os olhos dela encheram-se de tudo o que tinha estado a tentar não sentir nas últimas vinte e quatro horas.

Como é que tu…

— A tua criada salvou-o. A velha Saki. Trouxe-mo há seis meses, escondido, e disse-me que se algum dia eu casasse contigo, devia entregar-to no dia em que tu te tornasses mulher casada. Disse que era a tua mãe que assim queria.

Hana apertou o terço contra o peito. As lágrimas vieram finalmente. Não soluçava — caíam-lhe das pestanas, em silêncio, como chuva.

— Tarō-san

— Não me agradeças — disse ele, e levantou-se. — Vou pedir-te só uma coisa.

— O quê?

— Reza por mim no Paraíso, quando lá chegares. — A voz dele estava rouca. — Se há mesmo Paraíso para os bárbaros, e vós lá fordes, reza por mim. Eu não sou cristão, mas… reza por mim na mesma. Está bem?

Hana sustentou-lhe o olhar.

Tarō-san — disse-lhe, baixinho, com uma ternura que a surpreendeu a si própria —, juro-te que rezo.

Ele inclinou-se. Pôs-lhe a mão no alto da cabeça, como se ela fosse uma criança. Saiu sem olhar para trás.

A porta fechou-se. Hana ficou sozinha, com o terço apertado nas mãos, e começou a rezar finalmente. Sabia agora as palavras todas.


Pediu uma coisa ao guarda, ao amanhecer, antes de a levarem.

— Que seja o padre a confessar-me — disse. — Antes de morrermos. Tenho direito.

O guarda hesitou. Era homem velho, de boa família, e fora educado em tempo em que o cristianismo era tolerado. Conhecera padres em criança. Olhou para a rapariga ajoelhada na cela, com o terço da mãe na mão, e algo nele cedeu.

— Cinco minutos — disse. — Não mais.

Levaram-na ao pátio. Bento estava lá, ajoelhado também, com as mãos atadas. Mancava ainda da coxa. Tinha uma nódoa negra na têmpora — alguém o tinha batido durante a noite. Mas estava de pé, mais ou menos, e os olhos brilharam-lhe quando a viu.

Os guardas afastaram-se três passos. Não os desamarraram, mas deram-lhes os cinco minutos.

Ela ajoelhou-se à frente dele. Apertou a testa contra a dele, como naquela noite no pavilhão.

Ben-to.

— Hana.

— Confessai-me.

— Hana, agora? Não há tempo, não há…

Confessai-me, Ben-to. É isto que eu quero levar. Não é a vida. É a confissão.

Ele engoliu em seco. Fechou os olhos. E disse, em latim baixinho:

Ego te absolvo a peccatis tuis, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.

Amen — sussurrou Hana.

— Hana — e a voz dele tremia agora —, eu absolvo-te de tudo. Tudo, percebes? Tudo, todos os pecados que cometeste e que cometerias, se vivesses cem anos. Tudo. Vais limpa para o céu.

— Eu vou contigo — disse ela, e sorriu.

— Vais comigo.

E olharam-se. E à luz pálida da manhã sobre a praia de Hirado, com o mar a bater nas pedras e as gaivotas a guinchar lá em cima e os carrascos a afiar as lâminas a três passos de distância, Bento de Almeida e Matsura Hana sorriram um ao outro como se estivessem num jardim, e não na hora da morte.

Ben-to.

— Sim?

— Eu chamava-te marido, no jardim, à frente do Tarō. Lembras-te?

— Lembro.

— Eras meu marido?

Bento engoliu em seco. Tinha os olhos rasos.

— Hana — disse —, perante Deus, eu sou padre e não posso casar. Mas perante ti, e neste minuto, eu juro-te que se houvesse tempo no mundo eu teria deixado os votos e teria-te tomado por mulher e teria criado os nossos filhos. Juro-to.

— Então és meu marido.

— Sou teu marido.

Os guardas avançaram. Tinha-se acabado o tempo.

Ben-to — disse Hana, à medida que os afastavam um do outro —, vai à frente. Espera por mim.

— Espero.

— Promete.

— Prometo, Hana.

E puseram-na em primeiro lugar, porque assim era o costume — as mulheres antes dos homens, para que o homem visse a mulher morrer e tivesse de manter a coragem. Tarō, que estava nos fundos do pátio, virou a cara. Não viu.

Mas Bento viu. Bento viu tudo. E quando chegou a sua vez, dois minutos depois, foi de cabeça erguida, sem hesitar, e rezou em voz alta um Pai-Nosso em latim que toda a praia ouviu, e havia na voz dele tanta paz que mais tarde se diria, na cidade, que aquele homem não tinha morrido derrotado, e que talvez a religião dos bárbaros tivesse afinal alguma coisa que valesse a pena.

E quando a sua cabeça caiu sobre a areia, ainda tinha um sorriso a meio da boca.


Naquela noite, Tarō Sakamoto bebeu sake até cair, e ao cair de joelhos no jardim da própria casa, sob a lua cheia, fez uma coisa de que nunca falaria a ninguém: rezou o seu primeiro Pai-Nosso. Rezou-o desajeitado, com palavras meias, como Hana lhe tinha ouvido recitar uma vez, em criança, no jardim Matsura.

Que ela me oiça — disse, baixinho, ao mar lá ao longe. — E que me perdoe. E que diga ao bárbaro que eu não sou tão mau como ele pensou.

O mar não respondeu.

Mas, lá em cima, a lua continuou o seu caminho, e as estrelas piscaram sobre Hirado como se fossem velas deixadas acesas por mãos invisíveis, e talvez — quem sabe — algures muito mais alto que o vento e que a memória dos homens, dois recém-chegados ao Paraíso estivessem lado a lado a olhar para baixo, de mãos dadas, à espera ainda do terceiro.

E foi assim que terminou a história da última missa de Hirado.

Mas não foi o fim de tudo: porque essa missa, dita às pressas no pátio da cadeia, com dois condenados de joelhos e sem hóstia nem cálice nem altar, ficou na memória dos cristãos escondidos de Hirado durante duzentos e cinquenta anos, contada em sussurro de mãe para filha, até ao dia em que os padres voltaram. E quando voltaram, no século dezanove, encontraram em Hirado uma família a chamar-se Sakamoto, descendentes de uma criada da casa Matsura, que ainda rezava em segredo e ainda guardava um terço de contas pretas com um crucifixo de prata gasto.

E ninguém sabia já contar a história inteira. Mas todos diziam, ainda, que aquele terço tinha sido bem amado, e que tinha pertencido a uma senhora que morrera na praia, num amanhecer de primavera, ao lado de um padre estrangeiro.

E que os dois, dizia-se, tinham morrido a sorrir.


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por Eulália Soares
NAMBAN.PT · MMXXVI